sexta-feira, dezembro 31, 2010

mudança

Estou em Frankfurt e são 19 H 10 M.
Acabei de comer salsichas variadas com choucroutte e batatas cozidas, cortadas aos pedacinhos, com salsa ou outra verdura miudinha por cima. O gosto era difícil de detectar.
Devemos partir depois das 21H se não houver qualquer problema.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

escrito

se a neblina estende os seus véus
ao longo das campinas infinitas
sobra as nossas cabeças pairam
os corvos

as silhuetas das árvores encanecidas
bordam os horizontes enigmáticos
para além dos quais tudo acontece

as rapinas aves dos nossos pesadelos
continuam o seu vai-vem gráfico
agarram nas suas medonhas garras
as incautas crias das suas presumíveis
vítimas

não há raio de luz que rompa a treva
mumificada como manta
de espartano tecido
como capote de monge estático
na sua visão deslumbrada

enquanto os corvos permanecem
escondidos no negrume latente

mfs

terça-feira, dezembro 07, 2010

Adília Lopes

POST SCRIPTUM

Não posso escrever
como escrevia
antigamente
os meus temas
gastaram-se
como o azeite das lâmpadas
(e só as virgens-formigas
desposam o Noivo)
tudo foi escrito por mim
e tudo está por escrever
mas fora dos poemas não há poeta
o autor em carne e osso foi-se
o autógrafo também
das reacções químicas acabadas
ficou opó da ampulheta
não vivo para escrever
escrever é aliás viver
como ter um amor
ou uma dor de dentes
que nos podem inspirar
ou não
os cadernos pautados do meu diário
afogam-se no rio como os ratos
encantados pelo flautista
a poesia é luz e fumo
com os louros da minha coroa
tempero o guisado
que como sozinha
Fábio fez das cinzas
da sua dama
uma ampulheta
e deste feito um soneto
artefacto feito de dor
como a ampulheta

Adília Lopes
COLÓQUIO
Letras
número 125/126 Julho-Dezembro 1992

quarta-feira, dezembro 01, 2010

sábado, novembro 27, 2010

Exposição

um jantar simpático depois da exposição da Manuela Cristóvão

ontem e hoje

ontem foi um dia bom
almocei com família e houve tempo suficiente para se conversar
ofereci um dos meus quadros

e vi o recém-chegado à família
um adorável menino

vi igualmente os irmãos
todos crianças lindas

e que não fossem
seriam sempre adoráveis

hoje continuamos as arrumações no sótão
as coisas vão-se encaminhando

o candeeeiro da salinha de jantar deixou de funcionar outra vez
já foi "arranjado" 5 vezes
acho que isto não abona em favor de alguns dos nossos electricistas
aliás penso que estamos numa época de incompetências
os bons profissionais não abundam
e os outros ainda por cima querem ganhar o totoloto em cada trabalhinho

quinta-feira, novembro 25, 2010

hoje

melhor hoje que ontem

arrumar roupas
escolher as que levo

reparei que o tecto tem uma fissura
se calhar é das caixas com livros que coloquei no sótão
mais uma maçada

e os papeis que nunca mais acabam

quarta-feira, novembro 24, 2010

...

falta pouco mais de um mês para me ir embora

-----------------------------------
hoje tem sido um dia chato
ontem foi a inauguração da exposição da Manuela
ao jantar houve oportunidade para conhecer melhor uma colega
através de uma conversa sobre o que somos e como somos

gostei

sábado, novembro 20, 2010

escrito

fímbrias

segura o poema na paisagem com dedos de agulha

pelas fímbrias dos caminhos as palavras diluem-se em pulseiras

de vidros foscos

renascem as ervas felpudas nas cabeças descoroadas

pelas revoltas dos legumes

os canaviais sussurram medos de alienígenas

engole a flor desbotada do arbusto irritante

larga uma letra do poema

mais outra

mais outra

o poema escangalha-se

planta-se nas ervas craneanas

de um golpe habilidoso as canas vergam-se

à navalha de vento

o segredo dos medos evola-se no

fumo nublado dos olhos encegados

desfaz-se em flocos de neve envidraçada

sobre os lagos distantes dos satélites de

Saturno

m. f. s.

18-10-2005

escrito

24-07-2005

sob os pés se despenham as horas
o tempo desfaz-se em nuvens de nada

sou transparente

não me ilumina a luz do dia
nem os relampejos das estrelas
nem a prata lunar me toca

sou invisível

uma pena levemente me toca

sou de mármore

a água penetra em minhas veias

sou um rio

as pupilas rasgam os negros nocturnos

sou asfalto

as asas que se fecham pra morrer
cobrem os corpos abandonados das silfides
os centauros murmuram cantos sagrados

sou um desenho

há sereias nas cascatas
esfinges nos penhascos
Orfeu toca a sua flauta

sou uma linha

m.f.s.
já sangravam os céus e eu caía
eu caía

abriram-se rochas de majestosa rudeza
e eu caía

as asas dos ventos aplanavam os campos
os horizontes fugiam

a paisagem contorcia-se
reflectida no meu corpo
que caía

as fontes gritavam em golfadas vermelhas
que sobre mim caíam

que sobre mim caíam

mfs

escrito

25-05-2005

talvez não se saiba nunca porquê
como
para quê

o movimento é perpétuo
nos nossos átomos
nas circunvalações
do nosso cérebro

no cair das células
na paisagem
onde pernoitamos

talvez já saibamos tudo
e não saibamos

sentimos o corpo
que se transforma
em outras energias

amamos as outras vidas
donde viemos
e para onde iremos

mergulhamos nas ondas
dos outros eus

dos outros que nos reflectem
e a quem reflectimos

talvez ainda não tenhamos
descoberto
o nosso parentesco
com aquele
que contestamos

talvez esteja escondido
nas noites da ignorância
o elo que nos transforma
uns nos outros


m.f.s.

escrito

Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2008

escrito

cada manhã o vento varre a luz matinal engolindo
nas suas fauces o temor das crianças
o gorgulhar das águas tempestuosas
e sonha-se com os invernos de gelo e neve
chuvas furiosas sobre lagos escurecidos
lagartos verdes enregelados
andorinhas que voam para o calor
flores por nascer frutos ainda remotos

arranha-se uma qualquer melodia num piano
envelhecido e renitente melancólico quanto baste
os dedos hesitam sobre o teclado desistem
coçam a cabeça abandonam os sons suspensos
na atmosfera ainda quente da noite passada

o telefone parece retinir impernitentemente
abafando a tosse do ancião à porta da cozinha
os gatos estão milagrosamente quietos
cheira a café

mfs

sexta-feira, novembro 12, 2010

Useful Dog Tricks performed by Jesse

Que maravilha de canito
Obrigada samartaime

terça-feira, novembro 09, 2010

domingo, novembro 07, 2010

quinta-feira, novembro 04, 2010

escrevinhação

as roupas
as roupas estão
rotas

desfeitas em rasgões

esgarçadas

meias esburacadas
luvas engelhadas
em rugas circunflexas
botões perdidos
nas escadas
do metro

fiapos
as roupas estão
em fiapos
que a aragem
movimenta

a cor estraçalhada

os ombros
as costas gastas
os dedos dos pés
das mãos
alvejam
nos buracos
das roupas
que se desfazem
em ritmo
escanzelado

mfs

sábado, outubro 30, 2010

Inauguração da exposição na Prova de Artista


Da esquerda para a direita: Francisco Aquino, Conceição Silveira, Maria João Gallino, Fernanda França Garrido, Lígia Martins Leitão

quarta-feira, outubro 27, 2010

exposição

correu muito bem a inauguração com jantar e música
queriam que botasse discurso
recusei
todos a olhar para mim
detesto
video

desaparecer

desde os meus 2 anos (memórias contadas por minha tia m.) que tenho tendência para desandar
parece que com essa idade fiz uma trouxa da minha roupa e parti pelos caminhos da quinta na proximidade de penafiel
ia ter com minha mãe
que estava na ilha da madeira

essa tendência permanece
desandar
ir à deriva
ver e não ser vista

corpo-espírito

o meu corpo é um peso para as minhas ambições

preciso de suportá-lo de melhor maneira
imagino um mosteiro budista
e eu lá
a olhar para dentro
a esquecer-me de que sou matéria

singapura

faço projectos

andar
fotografar
desenhar
pintar
escrever
ler
aprender photoshop

hum

manipulações

na sic mulher o programa dos obesos que querem emagrecer
nas pesagens o suspense é usado e abusado
as repetições são marteladas no cérebro
que raio

velha-nova

as pessoas insistem em dizer que não pareço a idade que tenho
que utilizo os computadores melhor que elas
que tenho um espírito muito jovem
que isso se vê nos meus trabalhos
que...
que...

que cansaço

frio-calor

a romena cá da casa: lá é mais frio ou mais quente?
mais quente
ah é bom para si, é muito frigorenta...

domingo, outubro 10, 2010

fotografia

Posted by Picasa

medos

começa a crescer-me cá dentro um medo
mais um

se eu pudesse viver numa montanha
com uns autómatos
para me fazerem as malfadadas
tarefas caseiras

e um anjo de serviço
para me levar ao colo
pelos ares

e um sítio no meio do mato para
me sentar a meditar
a divagar
a esvaziar
a mente
o coração
e ser mais uma pedra
uma folha
um ramo partido

ou ser

antes

nada

de nada

os pés

talvez lá no oriente vá fazer massagens aos pés

tomb raider

na grécia
creio

um tremor te terra e mar
repetição da atlântida?

e a música
uma tuba
creio

as músicas das séries europeias são muito diferentes das americanas

a jolie com estrutura de rosto entre o egípcio
e o maia

os lábios desta actriz parecem bróculos

num canal televisivo
uma clínica de estética
fico mal disposta
os rostos repuxados
as maquillages empastadas
os peitos insuflados
mais horrível que um museu de horrores

as velhinhas não querem ter rugas
querem maçãs do rosto inchadas
beiços de couve-flor
alcachofra
broculados

bem
precisava de tirar a papada

aborrecimento

aborreço-me de morte

às vezes ando fora do corpo para me sentir mais confortável

sinto-o como um empecilho

no entanto dizem que os corpos são templos
moradas
palácios

o meu é um casebre em
risco de desmoronar

não gosto de pressões
mas parece que
em certa medida
podem prevenir as depressões

quando estiver do outro lado
hei-de cá voltar de vez em quando
para ver como passam as modas
e fazer buuuuuhhh

não vou querer um lençol branco a tapar-me a fluidez

antes tules e mousselines
talvez cetins
cambraias
sedas de teia de aranha

tudo branco
branco
branquíssimo

e

branco

sábado, outubro 09, 2010

medos

às vezes tenho medos

sexta-feira, outubro 08, 2010

hibernar


o inverno ainda não chegou e já me sinto a hibernar

foi adiada a exposição
je me sens triste

tenho deixado este blogue e outros um pouco ao abandono
de vez em quando deito uma vista de olhos aos meus escritos e pergunto-me eu escrevi isto?

a 29 de dezembro, se tudo correr bem lá vou para singapura
há um horto perto de casa de lá
espero conseguir plantar alguma coisa
perdi-lhe o jeito desde que abandonei a minha casa na ajuda e o seu quintaleco
aqui tenho três vasos cujas plantas são verdadeiras heroínas

a minha auxiliar caseira foi de férias para a terra do drácula e tem-me feito muita falta

na exposição da prova de artista vou ter três trabalhos novos

comprei uns brincos tremendamente kitsch na h&m e pendurei-os numa cortina da sala

hoje vi uma senhora nada jovem de cabelo vermelho
ah quem me dera ter essa coragem
às vezes penso que em singapura vou poder ser excêntrica à vontade

roupas orientais largas
cabelos coloridos
carteiras muito funcionais com imans que atraem os dedos quando buscam as coisas lá guardadas

sandálias confortáveis
óculos do sol bons protectores destes meus olhos sensíveis
pode ser que escreva mais do que aqui

mas a verdade é que tudo isto só seria possível se eu fosse outra pessoa
o meu problema sou eu

et voilà

Nova data

Por dificuldades inesperadas a minha exposição fica adiada para o dia 21 de Outubro às 19 H. Peço desculpa.

segunda-feira, outubro 04, 2010

sexta-feira, setembro 17, 2010

quarta-feira, setembro 15, 2010

exposições




pois, samartaime, devo ter uma exposição em outubro lá na galeria e outra em qualquer ponto do país, ainda não determinado
quanto à partida, espero que seja no fim do ano
mas só acreditarei quando lá chegar...

Campo de Ourique

já foram uma força de trabalho
merecem ter uma boa reforma
...e ser felizes

maria da fonte e o pombo sonolento

águas

andei por campo de ourique a fazer tempo
mas não digo a razão
vi três agências de viagem
aquela cujos serviços já tinha utilizado desapareceu
volatilizou-se
boom

almocei no canas
filettes de peixe-espada preto com banana e molho de maracujá
acompanhamento de legumes vários

gostei muito

tirei fotos às águas do jardim da parada, creio ser o nome
apanhei a maria da fonte com um pombo aninhado na ponta da pistola-revólver-bacamarte-ou-seja-lá-o-que-for

e ao grupo de reformados

sentei-me num banco com duas trabalhadoras na pausa do almoço

fui à procura de médico na farmácia
indicaram-me uma clínica perto
tive consulta logo no dia seguinte
a médica tem pacientes dos meus tempos das belas artes

a médica anterior evanesceu-se
não atende o telemóvel
deixou a clínica onde trabalhava
puuff.

hoje está fresquinho
que bom

quando se envelhece é-se frequentemente ostracizado
ainda não percebi que tipo de inteligência toma essa atitude
não queria fazer juízos precipitados...

pela minha janela chega um perfume agradável
e não é primavera

vou almoçar fora?
não vou?
hum

a simpática galerista decidiu fazer uma exposição dos meus trabalhos antes do fim do ano
hum e hum

terça-feira, setembro 14, 2010

domingo, setembro 12, 2010

Trabalhos antigos


Linoleogravura


Água-forte


Linoleogravura

http://www.cccaloura.com/index.php?mode=coleccao&p=27

sexta-feira, setembro 10, 2010

everyday



devagar vou transportando a tralha para o sótão
e deito-me no sofá quando estou farta destas lentas arrumações

está tudo calmo

i think

sexta-feira, setembro 03, 2010

sábado, agosto 28, 2010

hoje



bem, nada de novo no meu galinheiro
hoje não disse uma palavra a ninguém
excepto àquele que me acompanha sempre

já não tenho a gata a quem miar e não vi gaivotas
enviei um mail ao meu amor antigo

e mais nada
ah
fotos
poucas
digitalizações
algumas

e pronto

ontem fui ao alfarrabista
adquiri uns catálogos antigos
má imagem
as imagens quase todas a preto e branco
achei interessante comparar com os catálogos coloridos de agora

amanhã talvez vá ao zoo
depende da disposição

Newborn otter cubs - Wildlife on One - BBC

quinta-feira, agosto 26, 2010

bairro

escrito

inventário


tinha uma carteira de vidro

um lençol de coisas belas


um manancial de fealdades

um índice das tristezas armazenadas


uns sapatos de cristal como

os de uma determinada gata friorenta


um vestido em sublimes farrapos

um colar de cabeças mumificadas


um relógio às avessas


possuía o que nunca se possui

e um laranjal de flores olorosas


uns anéis em poeira estelar


alguns sorrisos sinceros

e outros de circunstância


numa caixa sempre fechada

enclausurou Pandora


mfs

escrito

às tantas a madrugada estilhaçou
a atmosfera morna
sibilante
povoada de animais que se
espreguiçam
ao saírem das neblinas
nocturnas

começaram os fumos dos escapes
a roçar as auto-estradas
ainda húmidas

os motoristas ansiavam pela pausa
do café
à beira das vias para onde
para sempre
para agora
despertas a custo

os odores da noite desvanecem-se
em acres sensações

ninguém sorri

alguns rosnam

as crianças dormitam nos bancos
secundários

as mochilas balançam nas curvas
das estradas

nunca mais o caminho
termina

nunca mais deixa de ser infinita
a via com horizonte
carregado do não se sabe
nunca
aonde nos levam estas veredas

mfs

quarta-feira, agosto 25, 2010

Carta a um amigo muito amado

Meu amigo que muito amei
Meu amigo que muito estimo

Um espesso muro do tempo nos separou

As memórias que regressam com o reencontro
A surpresa de descobrir que algo ficou
Que os anos não apagam tudo

A ternura que renasce
Quando o coração parece adormecido e cansado

A suave alegria de sentir que muitos oceanos
Não impedem que as nossas mãos se toquem

Meu amigo que muito amo

ontem

terça-feira, agosto 24, 2010

escrito

Vou correr sobre o meu caminho de brasas
Agarrarei as asas dos corvos do meu céu

Deslizarei pelas encostas relvadas dos meus sonhos
Encontrar-me-ei no sopé das fragas marítimas

As cores crepusculares enrolar-se-ão nas penugens flutuantes
Verei em 3D o gargalhar das gárgulas

As cortinas de nuvens amarelas vencerão os meus olhos
Nos meus pés o sangue desenhará papoilas

Deixarei as paisagens circundantes
Pelas superfícies marcianas a preto e branco

mfs

pequenas coisas

ainda em Timor
o liceu organizou uma sessão de cinema
uma colega e eu tínhamos de estar à entrada para receber as pessoas
uma seca
lá o pôr-do-sol acontece rapidamente
mas naquele instante a atmosfera ficou lilás
parecia um sonho
quase se podia agarrar a cor

sábado, agosto 21, 2010

café

quando vivia em Timor nos primeiros tempos estava em casa do meu irmão
havia um cozinheiro timorense que era uma preciosidade
além dos óptimos cozinhados fazia um café maravilhoso
quando regressava das aulas e entrava em casa esta estava toda perfumada do café
só por si o cheiro era uma delícia
é daquelas pequenas coisas que não se esquecem

sábado, agosto 14, 2010

gaivotas




desta vez as gaivotas aproximaram-se mais das minhas janelas
imitei-lhes os grasnidos
pareciam intrigadas
quem se aperceber destas minhas incursões nas linguagens animais poderá fazer juízos nada favoráveis
ora...
je m´em fiche

sexta-feira, agosto 13, 2010

hoje

levantei-me cedo
não tinha pão
fui tomar o pequeno almoço à rua garrett
não gostei da torrada

depois vagueei pelos arredores
fui ao largo da biblioteca de boas memórias
fotografei a minha antiga escola das belas artes
e os andaimes da rua ivens
a zona está povoada deles

quando era estudante e morava na sidónio pais
apanhava o eléctrico 24 e descia no "terminal" do carmo
aos anos...

uma manhã desci a calçada do sacramento e comecei a subir a garrett
para depois virar para a ivens

descendo vinha um homem
e assobiava
um assobio lindíssimo
não havia quase ninguém
o som parecia repercutir-se nas partículas da atmosfera

nunca mais me esqueci
uma coisa banal e tão bela

quarta-feira, julho 21, 2010

Ar condicionado

Não aprecio ar condicionado, sobretudo quando o vento vem para cima de nós.
Mas com este calor neste último andar decidi-me por um aparelho que vai ficar agarrado à janela e com um balde ao lado....
Espero poder ainda disfrutar da máquina esta semana.
Tem sido difícil alugar o meu velho apartamento. As pessoas propõem-se ir vê-lo mas depois não aparecem. Amanhã vou para lá outra vez. Veremos se alguém cumpre o combinado.
Creio que desta vez está mesmo decidido que irei para Singapura.
Só acredito quando lá chegar.

Gaivotas em terra

quinta-feira, julho 15, 2010

terça-feira, julho 13, 2010

3.ª feira

cortei uma pena da minha asa esquerda

ela sangrou

segunda-feira, julho 12, 2010

Cheese unlocks your wildest dreams, says study

Cheese unlocks your wildest dreams, says study: "Eating cheese before you go to bed will not give you nightmares but different varieties could help you choose the dreams you do want to have, says a study by the British Cheese Board."

sábado, julho 10, 2010

escrevinhando

Não vejo a mulher curvada
Que sobe as escadas

Só a sua sombra

Mulher índia
De penas no cabelo
Talvez

Solicitamos
Diz a legenda
Da série policialesca

Atrás do advogado de defesa
A sombra da mulher que ainda
Sobe escadas

Ainda tem penas
Nos cabelos
E parece ter mãos de rendas
Venezianas

O advogado ainda solicita
Vai livrar o acusado de não
Sei o quê
Da pena
De prisão
Depois de ter
Despojado
A talvez mulher índia
Das penas que lhe restavam
Da sua antiga condição
De nativa do novo mundo

As mãos de rendas estrangeiras
Ninguém lhas arranca

ffg

escrevinhando

É um revólver

Mas eu nunca vi um revólver

Só imagens

escrito

Fala comigo

Que não te escuto


Não te quero escutar

Silêncio arroxeado


Fala comigo

fala


ffg

escrevinhando

A areia escorre da palma da
mão da
Mulher sentada nas dunas
onde a brisa
Se agita

dos olhos da mulher escorre
a tinta azul
Que tinge as águas
Mais abaixo

Das águas sobe uma neblina
Que se amontoa em graciosas
formas brancas
que se dissolvem
mais acima

a mulher arranca algumas
plantas rasteiras de
fulgurantes
flores carmim
levanta o braço
e lança-as
para o lado

dos seus lábios desce uma
linha
que engrossa
escorre
engrossa

e forma uma mancha
vermelha
vermelha
no seu vestido

branco
branco

ffg

terça-feira, junho 29, 2010

escrevinhando

Tinham nos cabelos a habitual alegria
Esvoaçante
As meninas das escolas urbanas

Os predadores sufocavam nas sessões
De espreita camuflada
Às meninas das alegrias
penteadas

Corriam e riam como fadas
Que saltam de folha em folha
De nuvem em nuvem

Olhos voltados para o brilho
Da vida a crescer
Cegos para a negrura das almas
Predadoras

As meninas de cabelos habitados
Pela alegria da vida a crescer
Jamais entenderiam o sussurro
Pontiagudo
Dos camuflados assassinos

Ao deixar a luz das cores infantis
As meninas ainda estariam a correr
Cabelos gritando a
Alegria da idade dos sorrisos

mfs
>

domingo, junho 27, 2010

escrevinhando

Não há sombras de folhagens nas minhas janelas
O sol arde nos vidros sem cortinas

Nos telhados fronteiros os pombos fazem ninhos
Nos algerozes entupidos

Uma jovem gaivota grita no ninho de seus pais
E responde às minhas tentativas de diálogo

Espero vê-la lançar-se sobre o parapeito
Para me conhecer

Pequenos tufos de plantas cumprem o seu ciclo de vida nos beirais

As chaminés parecem prontas a desmoronar-se
Com as antenas televisivas quase obsoletas

A chinfrineira da recolha das garrafas dos bares
Faz-me ranger os dentes

Hoje é domingo

domingo, junho 20, 2010

escrito

Com um largo traço a pincel
Negro
Marco no papel
Branco
Um trajecto

Com uma faca
Vinco
Sobre o traço negro
E
Sobre o papel branco

Com um pincel molhado em
Água limpa
Desfaço parte do traço
Negro

Espalho a mancha sobre o papel
Branco
Agora cinzento
Na zona escolhida

Sobre o cinzento aguarelado
Desenho pequenos traços
Sinuosos
A branco

Olho de longe

sexta-feira, junho 18, 2010

José Saramago

Ergo uma rosa, e tudo se ilumina
Como a lua não faz nem o sol pode:
Cobra de luz ardente e enroscada
Ou ventos de cabelos que sacode.
Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
O céu pontua de ninhos e de cantos,
Bato no chão a ordem que decide
A união dos demos e dos santos.
Ergo uma rosa, um corpo e um destino
Contra o frio da noite que se atreve,
E da seiva da rosa e do meu sangue
Construo perenidade em vida breve.
Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
Quanto me doi de mágoas e assombros.
Ergo uma rosa, sim, e ouço a vida
Neste cantar das aves nos meus ombros.

José Saramago

domingo, junho 06, 2010

escrito

no silêncio das paisagens
das mulheres que desesperam
fermentam as agulhas enferrujadas
que bordam os contornos
dos vazios enevoados

que se agarram às bainhas
das saias envelhecidas
e sugerem pássaros bordados a seda
a desfazerem-se em farrapos de rendas

que se enterram nos tornozelos
fragilizados que aquiles lhes doou

agulhas vespertinas
que contra o céu se iluminam
como fogo de artifício
causador de cegueiras momentâneas
e súbitos terrores

as mulheres que desesperam
espreitam os horizontes de águas
imaginam naus bojudas
encimadas por bandeiras mortíferas

lembram-se de catrinetas
cogitam distraidamente
sentadas nas rochas
com laranjas no colo

ffg

sexta-feira, maio 28, 2010

nada

há uns tempos atrás ao subir uma transversal reparo num corpo deitado no passeio
coberto com um cobertor cinzento
só se viam os ténis e umas pernitas quase peladas
aproximei-me e tentei ver se respirava
o cobertor não mexia
pensei que alguém estava morto e ninguém ligava
o rapaz à porta da loja fronteira informou-me que estava lá desde manhã cedo
e encolheu os ombros quando me admirei por ninguém se importar
tonta como sou angustiei-me e chegada a casa liguei para o 112
ficaram de ir lá ver
dias depois encontro o dono da loja
riu-se quando perguntei se o corpo era de um morto
é um rapaz de barbas que anda por aí

o rapaz estava com uma grande piela...

tempos depois fui ao banco
era domingo

perto das caixas multibanco e quejandas um homem dormia
olhei com atenção

respirava

nada

o homem de uns sessenta anos atravessa a rua fora da passadeira ao mesmo tempo que atira para o chão um guardanapo de papel
o motorista de uma carrinha interpela-o, olha o papel
num monovolume mais atrás gritam, porco, porco
o homem, qué que tu queres? vai-te...
vai pó...

numa parede da FBAL

Posted by Picasa

sexta-feira, maio 14, 2010

escritos

no ar volátil das brancas montanhas
as libéluas
ostracisadas

perdem o irisado das longas asas

os flocos azulados que caem
acariciam as rochas
ligeiramente moventes
à beira das frestas escancaradas

nos flancos das elevações

as pestanas sustentam congeladas
gotas
a pele das faces retalhadas
encolhe-se sobre os ossos

engelha-se

lentamente o sol levanta-se
derrama sobre as neves o seu ouro
matinal

os texugos estremecem
num qualquer lugar

onde há texugos

ffg

quinta-feira, maio 13, 2010

5.ª feira da espiga

pão, carne, azeite ouro e prata para todos (hélas! vão esvaziar-nos os bolsos)

quarta-feira, maio 12, 2010

quarta-feira, maio 05, 2010

António Franco Alexandre

como viver com estas minúsculas
intempéries, a régua sobre a mesa, a chuva
pendurada nos altos telégrafos da paciência?
o passado levanta as lajes, dentro
do ar as sapatilhas vivem a sua luz ausente.
como nos escapa o que não há ainda!, os barcos
verde claro, e o retrato da sua casa iluminada,
e a alegria desta roupa «desfeita em lágrimas»,
e o cão «piloto» enterrado na hortelã, &
as minuciosas tabuletas anunciando o mar: tudo
costumes locais, colhidos ao acaso das
estrebarias públicas. as
comendas multiplicam-se, & o município vê
ameaçadas as mais altas esperanças. um dia
as árvores aparecem com grandes frutos ocos,
e o vidro cobre as ruas, as lajes .
redondas dos passeios.
e estes navios encalhados nos ramos, que arte
os poderia sossegar? é justo que esperemos
transparentes respostas; e que algures
se acabe a transparência, e fique
uma parede lisa; e que nos doa
a memória do enigma. daí, decerto, estas casas
imóveis, com os pássaros a meio;
o rumor dos grandes diques luminosos;
e as mulheres, sentadas nas oliveiras, com
lençóis azuis atados ao cabelo. e ao lado,
a imagem representa um sarau de província, o consumo
inusitado das lareiras, a crise que aguardamos.

somos acaso a silenciosa escravatura das águas? como
obedecer ao requerimento das cortinas, quando
ao erguê-Ias a brisa avistamos o passado
de unhas redondas junto à balustrada? e outra vez
nos escapa o sítio de vastos planaltos, o tropel
dos búfalos, das esteiras secretas, do assobio
junto das portas levemente azuis.
deixarei :
que me devorem os cachimbos do sal, a madrugada
violeta de antimónio. assim me saberão
a prazer os prazeres, como as nuvens
no ascensor dos fornos siderúrgicos, ou
tardes de poder popular. depois

as palavras, e a sua sombra nos armários
da greve, escaparão ao nosso ardor.
as planícies não cabem neste modesto horóscopo
que lhe anuncia o sofrimento, ambas as mãos
surdas ao princípio do dia, e a sucessiva
descoberta dos seus fins. afastemos enquanto
é tempo os temerosos búfalos, e os cabos
entrançados do terminal eléctrico. mas
como viver com os pequenos
inconvenieptes da catástrofe? nunca
aceitarei esse pacto ditado pelas vetustas
máquinas agrícolas. a sua passagem marcou
as ruínas redondas junto à praia, e a
«superior determinação das autor
idades responsáveis»
encerrou-os no insensato mercado das províncias.
como viver com este amável búfalo das m
ais distantes alagadas pradarias ardendo?

confesso que me espanta o mapa
dos seus inadiáveis sofrimentos. a norte
cai em lentas ladeiras, em barcos
de papelão azul e marinheiros cegos. e as altas
falésias da tarde, a caminho do sul!
a leste, o mar vazio de mar espalha redes
sobre os velozes corvos submarinos: quem .
recordará o estertor das suas presas? sombrias
são as suas sementes, as naus, os realejos
azuis do amanhecer.
as cabeças
do ar estendem .véus sobre o planalto. como
esquecer o seu bafo, a sua cólera
de mastros violentados?

visitarei secreto o seu ardente
esquecimento. as ruas, primeiro inclinadas a poente
depois cinzentas à beira da água,
falam-me obscuramente dos seus seios de anil
do seu perfil de mapa transportado
em secretas mochilas, a sua
árida transparência. e os seus ossos
repousarão na areia, junto à tarde aonde
fumei a seda imóvel, e o amei, e as suas
folhias me cobriram de poeira azul. como
viver com estes dentes, esta estampa
monótona de búfalos pastando,
e as suas casas iluminadas pelo vício?
e de repente deparamos com vastos armazéns
geológicos, como deuses que dormem:
como nos surpreende o seu triunfo! como nos pesa
o áspero rumor dos telefones! não acredito
sequer no que me diz. como
viver ha dúvida insensata dos seus
variados usos? e assim
nos esquecemos pouco a pouco, frequentemente
mais jovens, mas também mais selvagens.
não conheço este campo, este vidro, esta porta. não ouço
sequer o que me diz. apenas o tropel
dos búfalos; ao fundo, nos
elucida: e então



António Franco Alexandre
Os Objectos Principais
Poemas
Assírio & Alvim

Manuela Cristóvão

A ver

sábado, maio 01, 2010

Sylvia Plath


Papoilas em julho

Pequenas papoilas, pequenas chamas infernais,
sois inofensivas?

Estremeceis. Não posso tocar-vos.
Ponho as minhas mãos por entre as chamas. Mas nada
queima.

E fico exausta quando vos vejo
estremecer assim, pregueadas e rubras como a pele da
boca.

Uma boca há pouco ensanguentada.
Pequenas orlas de sangue!

Há nela um fumo que não consigo tocar.
Onde está o vosso ópio, as vossas cápsulas nauseabundas?

Se eu pudesse esvair-me em sangue ou dormir!...
Se a minha boca conseguisse desposar uma tal ferida!

Ou os vossos licores me penetrassem, nesta cápsula de
vidro,
trazendo-me a acalmia e o silêncio.

Mas sem cor. Sem nenhuma cor.



Sylvia Plath
Pela Água
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães