sábado, março 27, 2010

sábado, março 20, 2010

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Se as imagens fossem o suficiente...
http://www.leblogdebango.fr/

quinta-feira, março 18, 2010

Pablo Neruda, poeta e resistente

Bom, falam-me em Neruda e lembro-me de alguns dos seus poemas

Sou o tigre.
Observo-te entre as folhas
Largas como lingotes
de mineral molhado.
O rio branco cresce
debaixo da neblina. Chegas.

Mergulhas desnuda.
Espero.

Então num salto
de fogo, sangue, dentes,
de um golpe, atiro-me
sobre o teu peito, as tuas ancas.
Bebo o teu sangue, quebro
os teus membros um a um.

E fico na floresta
velando durante anos
os teus ossos, as tuas cinzas,
imóvel, longe
do ódio e da cólera,
desarmado na tua morte,
atravessado pelas lianas
imóvel, longe
do ódio e da cólera
desarmado na tua morte,
atravessado pelas lianas,
imóvel à chuva,
sentinela implacável
do meu amor assassino.


Pablo Neruda


QUERO CASTIGO


Eles trouxeram aqui as espingardas carregadas
de pólvora, eles mandaram o extermínio macabro,
eles encontraram aqui um povo que cantava,
um povo por dever e por amor reunido.
E a rapariga franzina tombou com a sua bandeira
e o jovem sorridente caiu a seu lado ferido,
e o povo viu cair os mortos
com fúria e dor.
Então, no local
onde caíram os assassinados,
tombaram as bandeiras empapadas de sangue
para erguerem-se de novo frente aos assassinos.
Por esses mortos, nossos mortos,
peço castigo.

Para os que de sangue salpicaram a pátria,
peço castigo.

Para o verdugo que mandou esta morte,
peço castigo.

Para o traidor que beneficiou deste crime,
peço castigo.

Para o que ordenou esta agonia,
peço castigo.

Para os que defenderam este crime,
peço castigo.

Não quero que me dêem a mão
empapada com o nosso sangue.
Peço castigo.

Não os quero embaixadores,
nem nas suas casas tranquilos,
quero-os ver aqui julgados
nesta praça, neste local.

Quero castigo.

PABLO NERUDA
Chile, 1904 . 1973
Notícias da Raiva
Edições Dinossauro
2003

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.

Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.


Pablo Neruda
Vinte Poemas de Amor - XX
tradução de Fernando Assis Pacheco

segunda-feira, março 15, 2010

o

o velho pintor aparece na galeria
espanta-se de me ver lá
está de preto roupa escangalhada
comprou-me a prensa que já não tenho muita paciência
e precisava de dinheiro

canta às noites num bar e agora entrou a fazer de anjo numa peça de teatro
não pára
mas a gravura e a pintura vão sendo mais ou menos adiadas
convida-nos para um "evento" - hum - para o dia 20
quer fazer gravura aditiva
pede explicações mais tarde por telefone

mudou de casa mas não de bairro
renda cara em andar alto
sem escadas mas com uma esplêndida vista para o tejo

à noite delicia-se a ver o rio ainda mais belo quando há lua no céu

ficará lá enquanto tiver dinheiro
depois irá não sabe para onde

quinta-feira, março 11, 2010

Ruy Belo

EFEITOS SECUNDÁRIOS

É bom estarmos atentos ao rodar do tempo
O outono por exemplo tem recantos entre
dia e noite ao pé de certos troncos indecisos
cercados um por um de sombras envolventes

Rente às árvores vamos, húmidos humildes
Dizem que é outono. Mas que época do ano
toca nestas paredes que roçamos
como gente que vai à sua vida
e não avista o mar, afinal símbolo de quanto quer,
ó Deus, ó mais redonda boca para os nomes das coisas
para o nome do homem ou o homem do homem?

Banho lustral de ausência é este tempo
de pés postos na terra em puro esquecimento
E vamo-nos perdendo de nós mesmos, vamos
dispersos em bocados, vítimas do vento
ficando aqui, ali, nalgum lugar que amamos
Nada mais do que terra há quem ao corpo nos prometa
Quem somos? Que dizemos?
Reúna-nos um dia o toque da trombeta

Ruy Belo
Boca Bilingue
Obra Poética
Editorial Presença

Ruy Duarte de Carvalho

EXERCÍCIOS DE CRUELDADE

*

As crianças
carregadas de destino
batráquios prisioneiros do pó e da vidraça
alastram no papel o som e a cor dos seus débeis sorrisos.

Arde-lhes já na face
o circunflexo acento do desgosto-
a reprimida força da malícia atenta.

Miram-nos frias do fundo da película-

crescem-lhes dentes de apetite oculto
mandibulam ameaças de domínio
destroem uma a uma
as flores da idade
e cobrem-se escarninhas
de pêlos urticantes.

Exibem unhas curvas
afiadas para a disputa
e denunciam intenções de assalto
na lisa mansidão
com que protegem a morosa espera.

As crianças tiranizam o espaço que atingiram.
Possessas
dilaceram crianças de outras raças -
assumem, rancorosas, o desdém na face
e inquirem
inocentes
se os pretos têm nome.

Ruy Duarte de Carvalho
LAVRA
Poesia reunida 1970/2000
Cotovi

Bulat Okudjava

AH, TU, BALÃO AZUL

Ah, tu, balão azul,
triste planeta!
Que fizemos nós contigo?
Para que é tudo isto?
Todos patinhamos em sangue,
em vez de fazer qualquer coisa...

Rios, cheios de amor,
podeis transbordar.

Bulat Okudjava

Diamanda Galas - Gloomy Sunday

GLOOMY SUNDAY-BILLIE HOLIDAY VERSION

Rezso Seress - Gloomy Sunday

Amalia Rodrigues _ Com que voz _

quarta-feira, março 10, 2010

criatividade e qualidade

"Os críticos salientam que esta fúria criativa dá origem a um elevado número de obras menores. Oates defende-se dizendo que o importante não é a quantidade de obras produzidas, nem sequer que a qualidade delas seja irregular, mas sim a força das principais"

http://escafandro.blogs.sapo.pt/94630.html

terça-feira, março 09, 2010

domingo, março 07, 2010

quarta-feira, março 03, 2010