quinta-feira, maio 31, 2007

Malaca

 


Centro comercial
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Malaca

 


A Formosa - vestígios portugueses em Malaca
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olho

quarta-feira, maio 30, 2007

terça-feira, maio 29, 2007

diz-me

sentirás tu o roçagar das impertinentes
pranchas de surf
sobre o cristal mágico das ondas
o rasgar das vidraças sob as luas de
outros planetas

será que ainda ouves os suspiros derradeiros
dos jovens assassinados nos desertos
marcianos

diz-me se ainda te lembras da carícia das plumas
dos anjos enamorados

vês as velas cor de glicínia
nas águas cinzentas dos rios infinitos

saberás tu que

no lastro dos navios vivem anémonas alecrins
ribombar de trovões entristecidos
topázios abandonados
jades adormecidos


dizes-me
?

m.f.s.

lua

na tranquilidade das noites sem lua
o riscar do vento nas janelas sem taipais
é como o esvoaçar dos vampiros queixosos
dos fantasmas perdidos entre mundos
das vagas que rendilham as águas no refluxo

as pegadas desfocadas dos mochos encurralados
o gemido das folhas que abandonam o lar
as frutas que se deixam devorar pelos melros
os ramos das grossas palmeiras que desenham adeuses
faíscas que saltam dos olhos dos gatos atentos

os cabelos que se espalham nas brancas almofadas
o frasco de perfume que rescende sobre a cómoda

a noite tranquila sem lua

m.f.s.

segunda-feira, maio 28, 2007

domingo, maio 27, 2007

porto de Singapura


...e aranhas...escrevo coisas estranhas-

as ferozes aranhas musicais
cobriram de sedas as estepes
apanhando nas suas ratoeiras
os sarapintados leopardos
as gargalhantes hienas
as motorizadas desvairadas
os ministros demitidos
as casas voadoras e as
ilhas suspensas
as nuvens distraidas
os pégasos de passagem
os berlindes coloridos
que as crianças abandonaram
para sempre
os carros de corrida e
steve mcqueen
quando tinha dezassete anos

nas suas idas e vindas
como os teares de antanho
espessaram a rede recolectora
pararam o vento intrometido
vestiram muitos fantasmas desnudos
criaram castelos de clara de ovo

por fim fizeram testamento
e retiraram-se para o armário
onde repousam as próximas vidas
com corpos de névoa

m.f.s.

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deuses

quando os fados roçam os meus cabelos
a neve desce sobre mim
o inverno mostra o seu rosto azul
tenho frio

muito frio

se as folhas das árvores em mutação
fazem o quente leito nas florestas
de outono

as minhas vestes aquecem o corpo
durmo sobre o fogo
o ouro
as doces magias
da cor

mas que me importa tudo isto
beleza sem beleza
tempo ininterrupto
vagas invasoras do mundo finito
areias voadoras
sobre os rostos amadurecidos
dos habitantes
dos desertos

de que serve mudar se nada muda

para quê os véus de freira
as golas dos sacerdotes
todos eles manchados
todos eles como vendas

para quê as tintas que camuflam o tempo
as agulhas que enchem os vazios periclitantes

os olhos que se degradam e se enchem de vermelho

porquê os ossos que se fragilizam
as peles que se desfazem sobre a carne
envelhecida

se somos deuses
que deuses seremos

imperecíveis no nosso corpo
cinzas das fogueiras de verão

deuses sem deus

m.f.s.

sábado, maio 26, 2007

socalcos

quero lembrar-me de tudo
de tudo o que vi pressenti
de tudo o que os meus sentidos
marcaram em mim
de tudo o que imaginei
desejei
criei inventei

nada ficará escondido

quero saber como eram as lagartas
que via debaixo das folhas
à transparência destas
as silhuetas eriçadas de pelos

como era o movimento das águas marinhas
quando se retiravam das praias

como se desmanchavam as nuvens em
que voei tantas vezes

quero sentir de novo o resvalar das
jovens pedras
quando descia os socalcos da ilha
onde vi o primeiro raio de lua

quero seguir de novo o trilho das formigas
sobre o recém-nascido pardal
que não resistiu ao tombar do ninho

quero espreitar os buracos das frutas
onde as moles cabeças de vermes
rilhavam a saborosa polpa

quero sentir as gotas refulgentes
dos chuviscos
sobre o verde aceso das ervas

trincar as uvas americanas da parreira
junto à casa encantada

trepar aos imberbes pinheiros
e deixar nódoas de resina no
belo vestido novo

correr com os rapazes e passar-lhes
à frente

gritar com os gemidos do vento nas árvores
durante a noite
cheios de fantasmas e bruxas más

fugir dos pavões bravios
agarrar lagartixas
deleitar-me com os estalidos dos
arbustos lançados às fogueiras

comer sopa de trigo da camponesa gentil
e batatas salgadas com sabor a orégãos

ter pesadelos

ter medo
ter falta de ar

querer morrer

esfolar os joelhos
atirar pedras aos miúdos

chorar com a queda dos dentes
de leite

partir a cabeça
encher o rosto de sangue
chorar e rir ao mesmo tempo

quero lembrar-me de tudo o
que não aconteceu

m.f.s.

ámen

deixou um rasto de sombra riscado de luzes
sobre o incauto coração

e as nuvens enfeitavam as janelas fechadas

carimbou a sua posse com marcas de anil fechado
anil irisado anil nacarado

e as árvores murmuravam lampejos frementes

prendeu nas suas penas as almas românticas
as almas sem reflexo

e o sol tingia de carmim as mãos dos inocentes

imaginou um cenário de cordeiros degolados
sobre aras pagãs

e isaac morria às mãos do anjo mensageiro

apoderou-se irredutivelmente dos vazios
dos nadas das agonias

e madalena morria aos pés do prometido

amalgamou os universos destroçados os
estreitos vales das mortes

e

enfim

a revolta dos desprotegidos
ergueu-se nos caminhos calcados
sacudiu as desgraças obrigatórias
estendeu céus resplandescentes
deixou silhuetas nos horizontes
refez os destinos
reviveu
levantou a cabeça

ámen

m.f.s.

sem nome

 
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folhas

 
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O campo em Lisboa

 
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sexta-feira, maio 25, 2007

carta

esta carta tem prazo de validade

se não a leres rapidamente
nunca saberás as promessas nela contidas

perderás as visões psicadélicas que nenhum
cogumelo consegue produzir
não conhecerás o futuro dos teus sonhos
nem as festas olímpicas dos filhos dos deuses

serás o renegado dos fados enegrecidos
jamais passearás sobre as águas dos mares
interiores

as tuas sandálias secar-se-ão como
a pele dos velhos

o cobre dos teus olhos oxidar-se-á
na tristeza do não saber

cairão os teus cabelos que eram de ouro

os teus dedos ficarão hirtos
como as estátuas dos maus escultores

um manto gélido de verdes dores
cobrirá o que restar da tua alma

perdeste demasiado tempo
a carta esfumou-se meu amigo
como o tremeluzir das miragens
do deserto

m.f.s.

filme

as portas levam às veredas
que conduzem a solaris

as águas são permanentes
como em tarkovski

nas montanhas com nuvens pousadas
os animais ainda vivos

correm sem destino

as pedras que saltam dos seus ninhos
sob os cascos assustados
esmagam os vermes desprevenidos

descem insectos zunidores
sobre o leito de ar denso
que cobre os campos

é vã a cortina que se desdobra
nas janelas impolutas

nada detem os invasores


após o almoço das crianças
as fisgas silvam gravilhas sobre os
jovens filhos de pássaro

riachos neblinas cães negros

tarkovski estende o olhar
sobre as aves que saem do
ventre da virgem da fertilidade

os morcegos fogem do filme
agarram-se às silhuetas dos emparedados

garras translúcidas de felinos corredores
abrem rasgaduras nas peles protegidas
das suas refeições perseguidas

e a água gela cria um vidro embaciado
fende-se de vez em quando

m.f.s.

quinta-feira, maio 24, 2007

Oeiras

 


A minha digital lembrou-se de captar vários planos, não sei como.
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Oeiras

 


O Bugio ao longe.
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Oeiras

 


Os "barquinhos" fazem sempre bom efeito.
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Oeiras

 


O tempo estava nublado e até chuviscou.
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Plantas

 


Hoje fomos a Oeiras almoçar com umas amigas.
Depois estivemos em casa de uma delas para apreciar as suas pinturas.
Uma parte do tecto estava coberta com esta linda planta.
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agar



dentro de mim há ecos de universos
há cantorias
há fios de linho
no meu avental

nos meus bolsos emaranham-se as
urtigas colhidas há pouco

decepei jasmins roxos violetas enamoradas
rosas altivas e hordas de gerberas em fogo

retoquei de carmim as faces de narciso
no tanque do meu quintal

sara a velha mãe fora de horas
expulsou-me sem grinaldas nem sandálias
de ouro

narciso não me seguiu seduzido
pela miragem

isaac chamou-me da ara em que sangrava
dei-lhe as canções do deserto

mostrei-lhe ismael exausto em meus braços
agar me tornei nas músicas das esferas

partimos para a sede

m.f.s.

segunda-feira, maio 21, 2007

campo

 
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campo

 
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campo

 
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campo

 
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campo

 
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em casa

ainda estou no meu tugúrio de vento no quintaleco
só devo regressar ao algarve em princípios de junho se tudo correr bem
entretanto vou pintando e alinhando palavras
não tenho feito passeios matinais e isso faz-me falta

aqui deixo o que escrevi há minutos

eram silenciosas as filhas escravas
as filhas que se despenhavam todas as noites
morriam devagar em leitos de águas calmas
de amores morriam
de desespero
de solidão nos seus corações
de génios incompreendidos
na fatalidade do sexo que lhes coube

oh madrugada de sacrilégios
manhã de redenções prometidas
nas aldeias abandonadas dos países vazios
oh ofélias oh virgínias
oh almas em transes permanentes
olhos repletos de visões infernais

oh mulheres malfadadas objectos utilitários
mulheres de almas enfraquecidas pela sujeição
fixai-vos no teatro das andorinhas casamenteiras
beijai os filhos que não tivestes
dizei ao homem aqui estou
como tu
meu companheiro
meu igual
meu frágil amante

m.f.s.

sábado, maio 19, 2007

roxo

uma flor negra como as pérolas renegadas do colo de vénus
uma flor de vidro roxo sobre o parapeito da janela aberta
uma nuvem que entra em casa e pousa sobre as alcatifas
um noitibó mudo
alguém que sai voando atrás do vento
a mulher que corre com música nos cabelos
os filhos que não conhecem mães nem pais
o casaco pendurado junto ao espelho vazio
o ar rarefeito nos pulmões atrofiados
um relógio

um relógio que se recusa a deixar o tempo esvair-se
nos seus ponteiros
o gesto do homem enfurecido contra a porta trancada
olhos muitos olhos em rostos melancólicos
estátuas que se desvelam em sorrisos pétreos
a silhueta amada no horizonte
a casa enfim desabitada
água que desce as escadas dos arranha-céus
borboletas que arrastam ventanias nas asas de filigrana

o sol que se apaga vestido de vermelho

m.f.s.

sexta-feira, maio 18, 2007

folha

Orlando Neves

Como realiza o corpo este exercício
da queda no súbito conhecimento
do espanto, quando os olhos estão vencidos,
cerrados pela transparência e pela luz
ofuscante da alva? À medida que o corpo
seca e se aplacam os seus, outrora, amáveis
dons, se ensombram os ossos, míseras as mãos
emagrecidas e se desnuda a carne
no fundo fôlego das águas, aumenta
o assombro da claridade. Só a vida
gerou o tempo, eis que ausente, ao resplendor
inesperado da luz descida. Onde vai
o humilde corpo, se corpo resta ou se outro,
receber a miraculosa mudança
de nada existir a não ser o profundo
bando do grito terrível de todos
os mortos? Ah, que estupor sela os músculos,
enrijece as unhas e aspira a voz,
resfria o suor e nos conduz, inertes
e cegos, ao núcleo da luz deslumbrante?
ó mar de que futuro, rumor volúvel,
sopro claro, envolve-nos de compaixão!

ORLANDO NEVES

José António Gonçalves

5

aí vês que os homens são seres sem importância:
as casas se desmoronam e as fábricas são brinquedos enormes para
entreter operários. as chaminés das indústrias são a mortalha dos
teus amigos.
imperturbável não te apercebes: o fumo vem e envolve-te. e esta sim-
ples imagem é última
que o teu espírito alucinado te sugere. então compreendes: és um
pássaro, morres, voas e o teu corpo é a terra que vês passar por baixo
velozmente como se fosses num comboio. como. se partisses de
verdade.

José António Gonçalves
Tem o Poder da Água
Editorial Éter

Armando Silva Carvalho

Semáforos

Nada te espera, prosa.
Levanta-te e caminha, como fez o outro.
As imagens guardam o seu tempo de exaltação.
Os sentimentos, não.
Não te preocupes com o homenzinho triste
que entrava o teu caminho, a porta não adivinhada.
O homem dos quarenta anos pede-te boleia.
Não olhes, não ligues, resiste aos seus lamentos
de cabra desgarrada em cima duma pedra.
Ele quer é seduzir-te com a infância,
essas crias medrosas que nunca soube orientar
e não sabe agora o que fazer com elas.
O teu destino é outro. Continua.
Se o homenzinho chora, atira-lhe ao olhar
toda a imensidão da relva que lhe resta.
O que ele quer é seduzir-te com amores,
as fátuas labaredas do desterro
e da vergonha.
O teu futuro és tu. Cresce e aparece.
A prosa que se preza não dá ouvidos à gente
que traz nas mãos um punhado de víboras
afinal tão amestradas.
Se o homenzinho implora, indica-lhe o lugar
a que tem direito no circo:
uma pista feita de memória
e toda uma plateia que cansada urra
e que o pateia.
Nada te espera, prosa.
Deixa o homem gritar.
O mundo das imagens é só seguir em frente
e nunca alcançar a rosa.


ARMANDO SILVA CARVALHO

quarta-feira, maio 16, 2007

a voz

a voz sussurrante
é apenas um pressentimento
uma imagem fragilmente sonora
um gesto invisível
a sombra transparente
uma ondulação num calmo
lago
a voz
murmurante como um pássaro
distraido
tem asas de tule incolor
qualquer coisa que
se assemelha
ao lampejar longínquo
de um sorriso divino
a macieza do creme anti-rugas
a pluma
o mágico algodão
de limpeza do rosto
a imagem no espelho
embaciado
o perfume da pasta de dentes
na monotonia das manhãs
a voz que
quase se extingue
na sonoridade dos surdos
roça em ténue maravilha
os sonhos das libélulas
põe-lhes nácares nos olhos
veludos nas patas
irisa as mãos das sereias
acalma o esbracejar
do tritão em cio
faz das cúpulas
das catedrais
o habitat das músicas
por inventar
segue caminhos incompletos
espera o despertar
das vozes escondidas
desvela-se na criação
de ilusões
infantis
desenha nos papiros
as histórias
secretas dos goliardos
em romagens
pelas tabernas medievais
lava os olhos
com colírio perfumado
põe paisagens verdes nos
cenários evanescentes

m.f.s

segunda-feira, maio 14, 2007

 
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poalha

a poalha em vagas de densidade variada
desce do interior dos olhos
até ao rebordo da pálpebra inferior

entorna-se pelas pestanas descompassadas
desliza pela olheira azulada

a poalha cria um regato brilhante
na paisagem do rosto sem luz

pinga até ao primeiro obstáculo
quando seca deixa no seu rasto cristais

a poalha lava os olhos
lava a alma
desfaz os nós das entrelinhas

e como dizia alguém tem a
mesma composição química
qualquer que seja a sua fonte

m.f.s.

Algarve em flor

 
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grafismos

 


Grafismos vegetais
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