sexta-feira, dezembro 31, 2010

mudança

Estou em Frankfurt e são 19 H 10 M.
Acabei de comer salsichas variadas com choucroutte e batatas cozidas, cortadas aos pedacinhos, com salsa ou outra verdura miudinha por cima. O gosto era difícil de detectar.
Devemos partir depois das 21H se não houver qualquer problema.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

escrito

se a neblina estende os seus véus
ao longo das campinas infinitas
sobra as nossas cabeças pairam
os corvos

as silhuetas das árvores encanecidas
bordam os horizontes enigmáticos
para além dos quais tudo acontece

as rapinas aves dos nossos pesadelos
continuam o seu vai-vem gráfico
agarram nas suas medonhas garras
as incautas crias das suas presumíveis
vítimas

não há raio de luz que rompa a treva
mumificada como manta
de espartano tecido
como capote de monge estático
na sua visão deslumbrada

enquanto os corvos permanecem
escondidos no negrume latente

mfs

terça-feira, dezembro 07, 2010

Adília Lopes

POST SCRIPTUM

Não posso escrever
como escrevia
antigamente
os meus temas
gastaram-se
como o azeite das lâmpadas
(e só as virgens-formigas
desposam o Noivo)
tudo foi escrito por mim
e tudo está por escrever
mas fora dos poemas não há poeta
o autor em carne e osso foi-se
o autógrafo também
das reacções químicas acabadas
ficou opó da ampulheta
não vivo para escrever
escrever é aliás viver
como ter um amor
ou uma dor de dentes
que nos podem inspirar
ou não
os cadernos pautados do meu diário
afogam-se no rio como os ratos
encantados pelo flautista
a poesia é luz e fumo
com os louros da minha coroa
tempero o guisado
que como sozinha
Fábio fez das cinzas
da sua dama
uma ampulheta
e deste feito um soneto
artefacto feito de dor
como a ampulheta

Adília Lopes
COLÓQUIO
Letras
número 125/126 Julho-Dezembro 1992

quarta-feira, dezembro 01, 2010