terça-feira, junho 29, 2010

escrevinhando

Tinham nos cabelos a habitual alegria
Esvoaçante
As meninas das escolas urbanas

Os predadores sufocavam nas sessões
De espreita camuflada
Às meninas das alegrias
penteadas

Corriam e riam como fadas
Que saltam de folha em folha
De nuvem em nuvem

Olhos voltados para o brilho
Da vida a crescer
Cegos para a negrura das almas
Predadoras

As meninas de cabelos habitados
Pela alegria da vida a crescer
Jamais entenderiam o sussurro
Pontiagudo
Dos camuflados assassinos

Ao deixar a luz das cores infantis
As meninas ainda estariam a correr
Cabelos gritando a
Alegria da idade dos sorrisos

mfs
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domingo, junho 27, 2010

escrevinhando

Não há sombras de folhagens nas minhas janelas
O sol arde nos vidros sem cortinas

Nos telhados fronteiros os pombos fazem ninhos
Nos algerozes entupidos

Uma jovem gaivota grita no ninho de seus pais
E responde às minhas tentativas de diálogo

Espero vê-la lançar-se sobre o parapeito
Para me conhecer

Pequenos tufos de plantas cumprem o seu ciclo de vida nos beirais

As chaminés parecem prontas a desmoronar-se
Com as antenas televisivas quase obsoletas

A chinfrineira da recolha das garrafas dos bares
Faz-me ranger os dentes

Hoje é domingo

domingo, junho 20, 2010

escrito

Com um largo traço a pincel
Negro
Marco no papel
Branco
Um trajecto

Com uma faca
Vinco
Sobre o traço negro
E
Sobre o papel branco

Com um pincel molhado em
Água limpa
Desfaço parte do traço
Negro

Espalho a mancha sobre o papel
Branco
Agora cinzento
Na zona escolhida

Sobre o cinzento aguarelado
Desenho pequenos traços
Sinuosos
A branco

Olho de longe

sexta-feira, junho 18, 2010

José Saramago

Ergo uma rosa, e tudo se ilumina
Como a lua não faz nem o sol pode:
Cobra de luz ardente e enroscada
Ou ventos de cabelos que sacode.
Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
O céu pontua de ninhos e de cantos,
Bato no chão a ordem que decide
A união dos demos e dos santos.
Ergo uma rosa, um corpo e um destino
Contra o frio da noite que se atreve,
E da seiva da rosa e do meu sangue
Construo perenidade em vida breve.
Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
Quanto me doi de mágoas e assombros.
Ergo uma rosa, sim, e ouço a vida
Neste cantar das aves nos meus ombros.

José Saramago

domingo, junho 06, 2010

escrito

no silêncio das paisagens
das mulheres que desesperam
fermentam as agulhas enferrujadas
que bordam os contornos
dos vazios enevoados

que se agarram às bainhas
das saias envelhecidas
e sugerem pássaros bordados a seda
a desfazerem-se em farrapos de rendas

que se enterram nos tornozelos
fragilizados que aquiles lhes doou

agulhas vespertinas
que contra o céu se iluminam
como fogo de artifício
causador de cegueiras momentâneas
e súbitos terrores

as mulheres que desesperam
espreitam os horizontes de águas
imaginam naus bojudas
encimadas por bandeiras mortíferas

lembram-se de catrinetas
cogitam distraidamente
sentadas nas rochas
com laranjas no colo

ffg