quarta-feira, novembro 28, 2007

escrito

os poetas ambulantes constroem
as suas cabanas
à beira dos rios sem foz
perdidos nos céus sem fundo
inventam plasticidades barulhentas
entre as pálpebras
das musas singulares

como cisnes envergonhados

os poetas sabem que tudo é ilusão
que tudo é real
que tudo se sonha
impreterivelmente
como um fado de fractais

que não há reverso nem anverso

os poetas rejubilam todos os dias
entre as acácias perfumadas de amarelo
beijam as musas renitentes entre
folhas de malvasia
penteiam as longas madeixas
das fadas adormecidas entre maçãs
enquanto os príncipes libertadores
se perdem nos bosques escurecidos
de ausência lunar

os poetas escondem os sapatinhos de cristal
de todas as potenciais princesas
ainda gatas ao borralho
para depois os iluminarem
nos natais sem estrelas nem
cometas

os poetas são irónicos viajantes
em refazeres perpétuos
como a poesia cósmica

mfs

escrito

eis

o presente que se estende até ao futuro
em carne viva
engolindo o passado proscrito
ostracizado
até às brumas
do esquecimento

as íntimas paisagens
impressionistas em sois poentes
as silhuetas de estranhos
convidados no celestial banquete
condimentado pelo remorso
do tempo vazio

o expressionismo da vida
em suspensas lianas
ferozmente abanadas
pelos ventos solares
pelos batimentos dos corações
destruidos

a espera

o desespero do destino incompleto
trazido pelo mar até
à nossa porta entreaberta
a certeza do encobrimento do nosso rosto
para sempre invisível
intangível na sua etérea essência
não nascido neste universo

a imensidão dos escolhos nos caminhos
transversos
as bátegas de ironias que escondem
o imo da vida alheia
altas as vozearias dos inanimados

o medo

a dor escondida da incompreensão
a sensação da inutilidade
de tudo
da nossa existência
em sonhos nunca perpetuados
a ignorância do projecto
final
das razões implícitas e inexplicáveis
do passado
do presente
do futuro

a imediata certeza do motor
inicial
em êxtases divinais

mfs

terça-feira, novembro 27, 2007

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luz


2.ª carta

aqui estou de novo para te
construir um pouco
tu que não existes


vejo-te atrás de um espesso muro
silhueta sem contornos
pronto para partir
mais uma vez
partir
para os desertos da
colossal china medieva


visto-te de mandarim
e para melhor me veres
desenho-te uns olhos em fenda
negros como o cabelo
entrançado


voas como nuvens de tempestade
vestes flutuando em vertiginosos
malabarismos


ainda não sabes de mim
ainda não sabes que me deves
o desenho
dos teus brocados
amorosamente trabalhados
para divinizar
o que em ti é demasiado
terreno

amanhã voltarei
para te construir outro perfil

talvez

Mário Cesariny


Poesias

Onde uma pancada súbita nos faz largar a presa
onde o extremo limite do horizonte é assinalado por uma gigantesca toalha de pedra
onde não é conveniente que entre o homem
onde a fortuna a que os mestres aludem é um licor muito forte em ânforas de prata
onde os olhos se movem precipitadamente
onde um rosto azulado estremece de olhos fechados
onde a infinita meiguice dos noivos gravou a oiro as nuvens da montanha
onde a estatura atlética dos túneis chama dragões que cantam e atacam
onde novas pazadas de carvão fazem gritar dois homens aterrados
onde uma carta e a sua maravilhosa odisseia são dirigidas pelo desconhecido
[mau grado as explosões tremendas que se sucedem
graças a um filtro milagrosamente ileso que no interior da massa líquida descobre
a imensa distensão do globo
urna rosa de espuma
um cavaleiro em mutação constante
onde salta para leste-sudoeste o vento e o céu fica brilhante e a terra desconhecida
onde o assunto principal é uma pequena barca munida de dois pares de remos
[e oculta em certo ponto do paredão que serve
[de ancoradouro aos grilos e aos fantasmas
onde, presas da agitação que precipita as catástrofes
há quatro formas brancas no horizonte
onde o assalto é a última esperança
onde novos poetas sábios físicos químicos tiram os guardanapos do pão branco
[do espaço
e onde à luz amarela da lâmpada de arco que ilumina a estatura do homem
[recém-chegado
milhares de berços de soldados-crianças são atirados do deserto para o mar.

Mário Cesariny de Vasconcelos
ÁRVORE
folhas de poesia

segunda-feira, novembro 26, 2007

domingo, novembro 25, 2007

 
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1.ª carta

esta é uma carta de mim que
não conheces
para ti que não existes
e que conheço
um pouco

queria dar-te notícias vagas
da minha sombra esquiva
perdida nos vales das montanhas
de neve azul

sombra que teima em me perseguir

sobre ela posso dizer-te que
às vezes se confunde contigo
tornando-se mais etérea
mais diluída nos átomos
das vias cinzentas

nos dias sem chuva espero
que surjas à porta
da minha cabana citadina
com uma flor de luz
ao peito
uma pulseira de pérolas
para o meu frágil pulso
de mulher evanescente

e um traço vermelho
na tua sombra

espero que se conjuguem todos
os fados
para que te transformes
naquele que nunca existiu

desejo
que me imagines como sou
e me dês vida

agora vou viajar
por sendas de céus trovejantes
mas em breve aqui me terás
para construir mais uma dimensão
de ti
que não existes

mfs

sábado, novembro 24, 2007

escrito

sairei de mim todas as manhãs
para lavar o quarto onde a alma se aninha
expulsarei os dragões dos vestígios
meteóricos
que me apanharam desprevenida

sairei pelas rotas dos pássaros viageiros
a cavalo nas résteas de luz matinal
vergarei a minha sombra
sobre os campos de mortífera neblina

escutarei

escutarei atentamente o vibrar
das minhas células gastas
à procura da renovação eterna

beberei da água descoberta em marte

à noite recolherei ao meu quarto
limpo das miasmas corrosivas
fecharei os olhos em sintonia
com as imagens que me povoam as
pálpebras cerradas

mfs

quinta-feira, novembro 22, 2007

matéria

o sinal do nosso mapa
traçado na nossa pele
vestígios fosforescentes
das crateras abismais
que nos fizeram sair
da negra matéria de deus

Évora


a porta que é a
abertura fulcral
para o encontro de cada um
consigo mesmo
é também o compromisso
para o conhecimento

matagais

nos matagais
rumorosos
de insectos felizes

sonho

Acordaste alguma vez sentindo que precisavas de lembrar-te do sonho
Que qual brisa cálida se afasta de ti com a rapidez de um desafio?

vestido

tenho um campo de malmequeres
no meu vestido de trapos

foto

 
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Vasco Ferreira Campos

ANTES QUE O VERÃO CHEGUE

Antes que o verão chegue
e as longas tardes
se espalhem pelo coração
e te prendam ao desgaste habitual
toca uma palavra
para que permaneça
na minha boca
onde mais ninguém
possa ficar confundido.
Uma apenas.

E vê como pesa menos sobre o silêncio
a sombra que vais mover.

Vasco Ferreira Campos
de A Voz à Chuva

MARIA VICTORIA ATENCIA

Pode a lua cegar-nos, ela que em nosso leito
nos convoca, nos fere fatalmente ou cativa,
fiéis a seu intento de um sono desvelado.
Abre-se a noite. Dura. A trepadeira é cúmplice.
Cai ao chão a roupa íntima. Porém, idêntica
aurora há-de velar-nos ou ser glória nossa.

MARIA VICTORIA ATENCIA
tradução de José Bento)

terça-feira, novembro 20, 2007

Ela chegou

 

Já se podem abrir os guarda-chuvas
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domingo, novembro 18, 2007

escrito

lúcifer enfeita os chifres de flores de papel
veste uma mini-saia de cabedal
escreve no blogue
canta o faduncho da casa da mariquinhas
adelgaça a voz em francês televisivo
coça os cabelos de arame farpado
as coxas atapetadas
deixa deslizar as lunetas

cai amoroso de umas asas
de cetim
que lhe foram retiradas
aquando da famosa queda e
apropriadas por miguel
em maré de boa colocação
no coro dos anjos submissos

lúcifer não sabe chorar
nunca aprendeu a fabricar águas
ternas águas salgadas
nos seus olhos de fogo incenerador
sem óculos escuros
trespassantes olhos
furiosas lupas

o que lúcifer sabe é que na sua rede
de pescador celestial
apanhará cedo ou tarde outras asas
talvez de suaves penas
talvez infernais
talvez de fogo emparedado
no que resta do seu coração angélico

mfs

escrito

o meu mensageiro comeu rapidamente a mensagem
sem importância
e em breve sofreu um avc fulminante
os improváveis destinos pré-concebidos desfeitos
em sedes cadavéricas
os traços dos caminhos desencaminhados
para outros sistemas planetários
os pés imaginados dos jovens centauros
esforçados em botas de translúcidos sintomas
sem importância

o louco mensageiro ressusscitou da sua saliva
entornada no coração fragilizado
com unhas riscadas de medonhos negros e luzes de
opacas sinfonias
maldizendo as mensagens assassinas
os emissores mal intencionados
com tesouros desviados dos museus imaginários
e queimados nas fogueiras de modernas inquisições

o mensageiro deixou cair os dentes
depois de raivosamente morder o receptor

mfs

escrito

cantava de boca fechada
olhos fechados
ouvidos abertos
cabelos emaranhados
pés frios
unhas grandes
saias de vento
pele de dragão

assobiava às luas
às estrelas mortas
às copas das árvores
invernosas
aos abismos
entre montanhas
em desertos
de dunas mortais

tocava líricas
desconchavadas
tambores viajeiros
pratos
sapateados voadores
em cometas de
ocasião

vivia assim
sobre as contingências
aguareladas
em pesada
suspensão
a cabeça cheia de
sonhos ponteagudos
bicudos
em plasmas
de espíritos
embriagados

mfs

escrito

brilhava a pele do doce lagarto apaixonado
sob as ervas amarelas da ilha escondida
nas brumas róseas sonoras e mutantes
vibrava o coração do belo lagarto
em taquicardia apressada

aquecia o sangue do dragão
à espreita do sonho enamorado
pela sereia escamosa
cantadeira momentânea
sedutora dos ulisses mal
precavidos

soltava o lagarto a bífida
língua
atraída pelo voltejar
do insecto desafiador
finalmente capturado
finalmente inserido
na natureza lagarteira

esfomeada
de insectos e sereias

mfs

Évora

 

ontem
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agenda

 

agenda familiar
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simplicidade

 
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sexta-feira, novembro 16, 2007

Inês Gonçalves

ROTEIRO PARA UM PARAÍSO PRIVADO

Deitar-se algumas vezes nos sulcos
do sono da noite anterior,
reconhecendo como um felino doméstico
o cheiro das nossas mantas. Não
lavar os dentes e sobretudo esquecer
de baixar as persianas. Coleccionar
pontas sucessivas de cigarros, jornais
de muitos ontens e rimas
de livros lidos só três páginas. Não
endireitar a curva daquele candeeiro,
deixar as gavetas abertas
com colírios, comprimidos e roupas
à vista. Amontoar em cima da cómoda
brincos ímpares, perfumes sem tampa, pequenos espelhos
quebrados, alfnetes, cartas, rascunhos
e chávenas de chá servido há dias, deixar
calar-se o CD com os lieder de Schumann
afastando os sapatos de muitos caminhos
e a roupa de todas as horas.

(in OS SOLISTAS, Um Quarto com Cidades ao Fundo)

Inês Gonçalves
Os Outros
Antologia de Poesia Portuguesa
Anos 80 e depois
Coordenação, prefácio e notas de
Leopoldino Serrão
editora ausência

João Camilo

E a Neve

Nós somos sempre dois, um respira
no silêncio e o outro
beija o sol.
A mão que toca o ombro (no sítio do nervo
irritável) ou o piano,
a chuva fria,
é sempre o apelo: choro
da criança e desvio da língua,
metade.
Na surpresa também a folha que vai caindo
de janela em janela esquece o exílio, cala,
e passa o destino breve
e os pequenos rios secam
e a neve das montanhas derrete-se
e apodrece a raiz do arbusto.
Nós somos sempre dois , aquele que
não suspeita a corrupção
e o outro governa sozinho em nome das massas.
O fogo e a neve ou uma maneira, estilo,
e vai para o infinito a emoção, esse ser
gota de água unida e pesada, esse ser de empréstimo.


João Camilo

Mendes de Carvalho

Perante a secura de ideias que se apoderou de mim, decidi elevar o nível deste blogue com poesia de qualidade ( eu não tenho pejo em considerar que há poesia de má qualidade, embora isso não tire nenhum direito aos que a fazem de continuar a escrevê-la)

Arte de bem Comer

Há quem coma com todo o requinte
quem coma entornado no prato
Os que comem sempre a mesma coisa
Há quem viva só para comer
ou coma para aguentar os ossos
quem roa os ossos quem roa as unhas
quem coma sempre no dia seguinte
quem engula depressa devagar
quem coma de pé sentado deitado
Os que mastigam com a boca aberta
e os que não podem abrir a boca
Há quem coma bicos de papagaio
quem coma aquilo que não quer
quem coma sonhos e coma flores
quem coma água e palite os dentes
quem tenha mais olhos que barriga
ou tanta barriga que ande de cor
quem coma tudo quem não coma nada
quem coma difícil com dentes postiços
e quem tenha dentes e não tenha nozes
quem coma no ritz quem coma porrada

Não se deve viver sem mastigar

Nas várias maneiras de bem ou mal comer
a arte maior é comer e calar.

MENDES de CARVALHO

gravura

 
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quinta-feira, novembro 15, 2007

terça-feira, novembro 13, 2007

INGEBORG BACHMANN

SOMBRAS ROSAS SOMBRAS

Sob um céu estranho
sombras rosas
sombras
numa terra estranha
entre rosas e sombras
numa água estranha
a minha sombra

INGEBORG BACHMANN (1926-1973)
(tradução de Judite Betkcmeiet e João Barrento)

segunda-feira, novembro 12, 2007

Philip Larkin

SIMPATIA EM BRANCO MAIOR

Quando atiro quatro cubos de gelo
Tilintando para um copo, e acrescento
Três doses de gin, limão em rodela,
Mais um quarto de tónica, que verto
Espumando até que afogue, jorro a jorro,
Tudo o resto, até às bordas do copo,
Ergo a bebida no silêncio de um voto:
Ele dedicou a sua vida aos outros.

Enquanto outros usavam como roupas
Os seres humanos no seu dia-a-dia
Eu empenhei-me em mostrar, a quem me cria
Capaz de o fazer, as montras perdidas;
Não resultou, com eles ou comigo,
Mas todos assim ficaram mais próximos
(Ou tal se pensou) de todo o imbróglio
Do que se o perdêssemos cada um por si.

Boa pessoa, um fulano às direitas,
Sempre na linha, um tipo impecável,
Um ás, o máximo, um gajo porreiro,
Não lhe chegavam nem aos calcanhares;
Que chata teria sido esta vida
Se ele não tivesse andado por cá;
Um brinde, que alma mais branca não há! -
Não sendo embora o branco a minha cor preferida.

Philip Larkin
INIMIGO RUMOR 15

tigre


orvalho nos olhos do tigre
e brilhos

fechar os olhos



afasta a cortina
olha lá fora a luz
derramada das
estrelas sobre as
folhas agitadas
dos arbustos
fecha os olhos
abre os olhos
a luz apaga-se

afasta-se da janela
senta-se no sofá
fecha os olhos
abre os olhos
agarra o telecomando
acende a televisão

fecha os olhos

à lupa

amar o vento
que rompe as artérias
arranca a pele
alisa os céus
arrasta estrelas

teia


tenho um nome de teia de aranha

escrito


não há luas nestes céus
só meteoros nas águas dos
teus olhos

escrito


escolhi um nome para o avesso de mim
um adjectivo benevolente para a minha apatia
uma rosa controversa para o meu colar

preencho com utopias os meus intervalos
penduro gotas de arranhões nos meus joelhos
riscos de sendas agoirentas nas minhas cordas vocais
crio litanias cantos gregorianos convulsões
monto o espectáculo da cidadania ofendida
e ofensiva

chego perto de mim cada vez mais longe
capto num relance a sombra dos rostos ofuscados
murmuro
suspiro sussurro sussurro sussurro

mfs

domingo, novembro 11, 2007

Estação do Metro das Olaias

Dennis Cooley

ESTE MUNDO SÓ

do que mais me lembro -o silêncio
acima de tudo um enorme silêncio
como nenhum outro que eu tivesse sentido
e escutávamo-lo como se escuta
um bebé no berço e se teme
que já não esteja vivo ou não respire
e que não se ouve por muito tempo

um silêncio tão vasto e tão profundo que oiço
no meu próprio corpo o sibilar das veias
o meu coração mal posso acreditar
os músculos mexem-se e ouve-se
o sussurrar que as camisas e os fatos
fazem quando nos vestimos
de manhã oiço-os restolhar
quando passam uns pelos outros
como nós passamos pelo nosso silêncio

ouvi dizer que os colonos das pradarias do Canadá
encontravam um silêncio enorme vacilavam
ali no ar como aves num deserto
& um vazio inacreditável
passava por nós aos tombos

e as estrelas meu deus as estrelas muitas mais
do que eu teria alguma vez imaginado
não sei o que é mas este céu
é tão negro de um negro tão escuro mas
cheia de sol a terra é

uma luzinha brilhante de cortar a res
piração azul & branca o seu
hálito doce de nuvens
querida terra querida menina
tão sozinha a casa que deixámos
a terra tão redonda nunca imaginei
quão redonda quão pequena
até ter visto a terra

Dennis Cooley (Canadá)
INIMIGO RUMOR 15.

D. H. Lawrence

Fogo

O fogo é-nos mais caro que o amor ou o alimento,
quente, apressado, mas queimando se lhe tocares.

O que devemos fazer
não é unir o nosso amor ou a nossa boa vontade, ou qualquer
coisa dessas,
pois temos a certeza de introduzir muitas mentiras,
de modo a que se erga numa enorme chama como um falo no
espaço vazio
e venha fecundar o zénite e o nadir
enviando milhões de centelhas de novos átomos
e nos queime e incendeie a nossa casa.

D. H. Lawrence
Os Animais Evangélicos e outros poemas
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães
Relógio d´Água

Dylan Thomas

VEM UMA MUDANÇA
NO TEMPO DO CORAÇÃO

Vem uma mudança no tempo do coração
secar a sua seiva, e um brilho que nos fere
vibra no interior glacial do túmulo.
Transforma-se na cidade das veias
a noite em dia, e movem-se ali os vermes
sob o reflexo solar do próprio sangue.
Vem uma mudança ocultar nos olhos
os ossos da cegueira, e então o ventre
mergulha na morte como o aparecimento da vida.
A escuridão no tempo dos olhos
encontra-se com a luz; a profundidade do mar
rompe sobre uma terra sem arestas.
A semente, que gera dos flancos um bosque
vem dividir o seu fruto, e cada metade
derrama-se lentamente no vento adormecido.
O tempo ao percorrer a nossa carne e os ossos
fica húmido e seco; o que desperta e o que morre
junto dos olhos são como dois espíritos.
Vem uma mudança no tempo do mundo
transformar um espírito no outro, e cada criança
na sua mãe amolda-se sob uma dupla sombra.
Assim é arrastada a lua em direcção ao sol,
da pele são removidas as andrajosas vestes,
e o coração abandona-se à morte.

Dylan Thomas
A Mão ao Assinar este Papel
Trad. e prefácio de Fernando Guimarães.
Bilingue
Assírio & Alvim, 1990.

Feira de Arte de Lisboa

 
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Feira de Arte de Lisboa

 
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