segunda-feira, janeiro 28, 2008

escrito

está deitado num leito de jasmins
o corpo adormecido e desabitado
esquecido das dores deste mundo estreito

o jasmim lança apelos perfumados
em transparentes revoadas
como pássaros alacres
em início de primavera

como vagas imponentes
a paisagem deforma-se sob os olhos
do corpo deitado
espalma-se contra os brancos dos papeis
deixa-se prender

lentamente os véus da imortalidade
engolem as imagens despertas
de cada lembrança
resgatam as partículas das pequenas
almas perdidas em cada recanto
em cada teia de aranha

voam os flamingos em rajadas de carmim
levando consigo todos os adormecidos
corpos desabitados
para os templos das luzes perpétuas
onde tudo se detem
onde os caminhos terminam a sua
peregrinação
os pássaros deitam-se no vento
e as águas movem-se
como músicas eternamente
claras e abundantes

à margem das coisas eternas
os frios arrepiam todas as peles
as vítimas escolhem os lugares nos autocarros
olhos inquisidores fazem campanhas sonolentas
pelas abelhas sem cortiço
pelas formigas dispersas nas mesas
das casas fartas

as juras de amor soam a armadilhas
tudo é uma fantasia carnavalesca
até os jasmins, junquilhos e demais vegetais
nos leitos dos corpos adormecidos
e vazios
se deixam fotografar

mfs

domingo, janeiro 27, 2008

escrito

vivo num resíduo de luz
fugida de algum cometa
saido da sua monstruosa nuvem
de ort

a minha sombra prolonga-se
pela galáxia
numa afanosa busca
do ressoar dos embates
entre centauros e amazonas

as manchas nas faces
das estrelas
são mapas dos trajectos
desde sempre marcados
sob as pegadas
de cada destino

lavo o espírito com a música
dos heroicos deuses falecidos
limpo o corpo com as cores
da minha paleta

mfs

sábado, janeiro 26, 2008

escrito

faz-me falta aquela cor transparente
das cortinas da velha casa
o som quase ameaçador
das copas dançarinas
das árvores quase tropicais
nas assustadoras noites
de centopeias
nas paredes brancas

as trepadeiras de rosas amarelas
ainda me povoam
como fantasmas rejuvenescidos
os muros dos jardins que já não tenho
e os filhotes de melros
continuam a cair dos ninhos
suspenso nos velhos carvalhos

nos jardins que em tempos tive


mfs

escrito

o único lugar que existe à beira-mar de um rio
está na margem de um solitário coração
entre corujas sonolentas e alvos coelhos
vegetais de imortal plástico decorativo
nas mesas carunchosas dos antiquários

a única vez que vi um andarilho de pé descalço
foi em supostas caminhadas por húmidas sendas
entre geografias incompletas sobre planetas
por descobrir

e para chegar ao lugar único tive que roubar
as sandálias do peregrino que me tolhia o caminho
pendurar-me nas garras do paraquedista de passagem
olhar ternamente o amigo inexistente

e partir

primeiro

devagar

depois cavalgando
como as valquírias

a toda a brida
meu deus

que o tempo
parou há muito

mfs

aniversário


ontem festejamos o aniversário de uma amiga
comida excelente
convívio mais que excelente
o restaurante é o gravatas
recomenda-se

sexta-feira, janeiro 25, 2008

escrito

serei um dia a camélia japonesa
ressuscitada do jardim da infância
na ilha viajante entre brumas

na macieza das minhas pétalas
os orvalhos criarão diamantes
matutinos
os insectos com seus ligeiros
corpos
pousarão caminhos de
misteriosos destinos

alguém decepará meu talo
para o prender em alguma lapela
incógnita
e aí o louro da velhice
murchará o antigo vigor da
minha seiva
secará a minha sede inútil
deixará uma fragância
que jamais camélia alguma
exalou de seu corpo em fim
de vereda

mfs
gfsw75 says:

You saw beauty others might have missed and are invited to put this photo in Commonplace Beauty!
Congratulations on your ability to see beauty in the mundane!

Wonderful minimalism! Give others a pleasure and add it to COM-minimal, if you don't mind. (It's a place for contemplation, don't fear crucial rules ;-)

HUM...a minha página no flickr hoje está animada...

escrito


regressei à turbulência dos dias
imóveis
nas fotografias a sépia de outros tempos

vejo a tua porta por abrir
como a tampa de um poço vazio de
alma

valerá a pena suspender as noites
nos altos apartamentos
com jardins babilónicos à minha espera

se tu não existes ignoro a tua sombra que espreita
pendurada nas asas farfalhantes dos pombos

talvez entregue ao rio este vislumbre de ti
enleado num modesto ramo de alecrim
do alecrim que recusa os jardins apaziguados
das aborrecidas mansões
e escolhe o vento sibilante e apaixonado
dos cumes serrilhados de rochas

mgs

escrito


as nuvens que me turvam a visão
já de si verde na íris
espantam-me os cânticos ondulantes
solenes arrepiantes
dos monges solitários
nas suas celas de frio permanente

varro de um gesto impaciente
estas nebulosidades
que só me deixam ver para dentro
onde a visão é perturbante
alheada do macro-mundo

amanhã vou mudar de lentes
escolherei o lilás dos lírios
do meu jardim
plantarei algumas nuvens
apesar de tudo

pode ser que venha a ter saudades
dos ares nublados como micro-climas
em desertos de ouro ardente

mfs

escrito


voltei meu pequeno tição de extinto fogo
para te-me salvar de ti de mim
para te ver rejubilar em vermelho-fogo
para te pendurar no meu fio
de prata marroquina
como uma medalha de qualquer fé pagã

mfs

escrito

amanhã o sol reluzia junto ao moribundo horizonte
ontem choverá nas pampas argentinas
entre cá e lá há o agora
suponho
com várias tiranias pelo meio
e paisagens sorumbáticas
espalmadas nos vidros foscos
das janelas anti-nucleares

rejeito pensamentos reconfortantes
reconfortados pelas ilusórias esperanças
dos futuros dos agoras nascidos dos ontens
jamais terei fé nestes domínios violetas
em sombras de pratas envelhecidas
sobram vapores engalfinhados
nas auto-vítimas esmorecidas e agoniantes

e os céus nunca existiram no céu
por isso rego de vermelho as palmeiras
californianas
e talvez também as de miami refulgente entre tufões
aproveito agora e já os sismos revigorantes
embarco na nau do holandês voador
para assustar os distraidos marinheiros
entre neblinas espessas

mfs

sábado, janeiro 19, 2008

escrito

o espantoso fogo das tuas lentes desfocaddas
voadoras areias de desertos em combustão
sibilantes golfinhos em sedentos mares moribundos
as mãos enleadas nas teias irónicas das intrigas
os pés que saltam abismos nas margens de ti
suaves cabeleiras de medusas adormecidas
carneiros gigantes de lãs ensebadas e em volutas
ulisses que se espreguiça no colo das sereias
david perseguidor de jezabel sem vestes
a rainha negra grávida do rei resplandecente
as colunas do templo que desabam sobre os fieis
o espantoso fogo dos teus olhos cegos
as areias que lanças nos abismos na tua margem
as almas suplicantes como carpideiras mortais
o mergulho infinito nos braços do amor inconcluso

mfs

escrito

brilhas no escuro como
uma imagem de santo
pela casa navegam as
ondas do teu
cheiro a alecrim serrano
selvagem e divino

os teus olhos cerram-se para
melhor verem os anjos
dispersos
pelas galáxias
de cores revoltas
luzes voláteis
matérias em
transformação

quando regressas
das viagens com que sonhas
plantas narcisos
jacintos
túlipas
no teu jardim
sem serpentes

no inverno
regressas à serra
agreste
onde esperas o
tempo das flores
olorosas

mfs

sexta-feira, janeiro 18, 2008

escrito

cada manhã o vento varre a luz matinal engolindo
nas suas fauces o temor das crianças
o gorgulhar das águas tempestuosas
e sonha-se com os invernos de gelo e neve
chuvas furiosas sobre lagos escurecidos
lagartos verdes enregelados
andorinhas que voam para o calor
flores por nascer frutos ainda remotos

arranha-se uma qualquer melodia num piano
envelhecido e renitente melancólico quanto baste
os dedos hesitam sobre o teclado desistem
coçam a cabeça abandonam os sons suspensos
na atmosfera ainda quente da noite passada

o telefone parece retinir impernitentemente
abafando a tosse do ancião à porta da cozinha
os gatos estão milagrosamente quietos
cheira a café

mfs

quinta-feira, janeiro 17, 2008

obras



a casinha está a ficar luminosa

Avaria



portátil doente
clikar na imagem

Cruzeiro Seixas

Só o cheiro das ervas e dos martelos
faz tremer este espaço
de aço
que retém os meus cabelos
sobre os teus joelhos.

Fumo e fogo
e o harpejo que floresce
na imensa abóbada do futuro.

Olhamos a pedra
que nestes jardins
pálida
como a morte
medra.

CRUZEIRO SEIXAS
o futuro em anos-luz
100 anos 100 poetas 100 poemas
selecção e organização valter hugo mãe

gravura


prova de ensaio mal sucedida


matriz

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Manuel da Fonseca

Não era noite nem dia.
Eram campos campos campos
abertos num sonho quieto.
Eram cabeços redondos
de estevas adormecidas.
E barrancos entre encostas
cheias de azul e silêncio.
Silêncio que se derrama
pela terra escalavrada
e chega no horizonte
suando nuvens de sangue.
Era hora do poente.
Quase noite e quase dia.

E nos campos campos campos
abertos num sonho quieto
sequer os passos de Nena
na branca estrada se ouviam.
Passavam árvores serenas,
nem as ramagens mexiam,
e Nena, pra lá do morro,
na curva desaparecia.

Já de noite que avançava
os longes escureciam.
Já estranhos rumores de folhas
entre as esteveiras andavam,
quando, saindo um atalho,
veio à estrada um vulto esguio.
Tremeram os seios de Nena
sob o corpete justinho.
E uma oliveira amarela
debruçou-se da encosta
com os cabelos caídos!
Não era ladrão de estradas,
nem caminheiro pedinte,
nem nenhum maltês errante.
Era António Valmorim
que estava na sua frente.

— Ó nena de Montes Velhos,
se te quisessem matar
quem te haverá de acudir?

Sob este corpete justinho
uniram-se os seios de Nena.

— Vai te António Valmorim.
Não tenho medo da morte,
só tenho medo de ti.

Mas já noite fechava
a saída dos caminhos.
Já do corpete bordado
os seios de Nena saíam
— como duas flores abertas
por escuras mãos amparadas!
Aí que perfume se eleva
do campo de rosmaninho!
Aí como a boca de Nena
se entreabre fria fria!
Caiu-lhe da mão o saco
junto ao atalho das silvas
e sobre a sua cabeça
o céu de estrelas se abriu!

Ao longe subiu a lua
como um sol inda menino
passeando na charneca…
Caminhos iluminados
eram fios correndo cerros.
Era um grito agudo e alto
que uma estrela cintilou.
Eram cabeços redondos
de estevas surpreendidas.
Eram campos campos campos
abertos de espanto e sonho…

Manuel da Fonseca

THOMAS BERNHARD

EM FRENTE DA MACIEIRA


Não morro antes de ter visto a vaca
no estábulo do meu pai,
antes de a erva acidular a minha língua
e o leite mudar a minha vida.
Não morro antes de o meu jarro estar cheio a transbordar
e o amor da minha irmã me lembrar
como é bonito o nosso vale,
onde amassam a manteiga
e, na Páscoa, abrem marcas no toucinho...
Não morro antes de a floresta mandar os seus temporais
e de as árvores falarem do Verão,
antes de a minha mãe ir pela rua com um lenço vermelho,
atrás do carro aos solavancos, no qual
ela empurra a sua felicidade: maçãs, peras, galinhas e palha...
Não morro antes de se fechar a porta por
onde entrei,
em frente da macieira...



THOMAS BERNHARD
(1931-1989)
(in «Na Terra e no Inferno»,
Tradução de José A. Palma Caetano,
Assírio & Alvim, 2000)

domingo, janeiro 13, 2008

Pissarro e Rita Gamboa


Pissarro e Rita Gamboa
Galeria Diferença
R. S. Filipe Neri, 42, cave 19.Jan. a 01 Mar. 2008
Horário: terça a sábado 15h00 às 20h00

sábado, janeiro 12, 2008

escrito

à minha porta está sentado
um homem
perfil ameno olhar invisível
mãos sobre os joelhos

limpo a mesa ponho a toalha
os guardanapos
restantes apetrechos

verifico o odor da panela
ao lume
a cor do vinho
a localização das flores
na jarra

ligo o rádio

o homem está sentado
no meu sofá

perfil mais definido
mãos mais envolventes
nos joelhos

volto à panela
apago o gás
lavo as mãos
deito o estufado na
travessa
o arroz noutra
transporto as duas
para a mesa

o homem abandonou
o sofá

olha-me agora
directamente
do desenho a tinta da china
sobre papel fabriano
sem moldura
na parede
fronteira à porta
onde em tempos
o homem se sentara

mfs

Gravuras



Variações sobre a mesma matriz

Tarkovski

na rua da galeria abriu uma pequena livraria que também vende
livros em segunda mão

tem um bar e às quintas à noite têm música ao vivo

espreitei a montra e num cantinho estava um livro do meu realizador
preferido andrei tarkovski

esculpir o tempo assim se chama o livro

folheei-o e li

«É errado dizer que o artista "procura" o seu tema. Este,
na verdade, amadurece dentro dele como um fruto, e começa
a exigir uma forma de expressão. É como um parto...
O poeta não tem nada que de se orgulhar: ele não é o senhor
da situação, mas um servidor. A obra criativa é a sua única
forma possível de existência, e cada uma das suas obras é
como um gesto que ele não tem o poder de anular...»

comprei o livro e em casa comecei a ler a introdução

«... Gostaria de citar aqui algumas das cartas mais características...
Uma engenheira civil de Leninegrado escreveu: "Vi o seu filme,
O Espelho. Assisti até ao fim, apesar da grande dor de cabeça
que me foi provocada na primeira meia hora pelas tentativas
de analisá-lo...Nós, pobres espectadores, vemos filmes que
são bons , maus, muito maus, banais ou extremamenta originais.
Porém, no caso de qualquer um desses filmes, podemos
sempre entender, ficar entusiasmados ou entediados, conforme
o caso, mas...o que dizer do seu filme?!»

mais adiante

«Uma espectadora de Gorki escreveu: « Obrigada por
O Espelho. Tive uma infância exactamente asssim...
Mas você...como pôde saber disso?»

não me alongo mais

é um belíssimo livro tenho a certeza e vai dar.me mais luzes
sobre tarkovski que tanto amo

segunda-feira, janeiro 07, 2008

gatinha

 
Posted by Picasa

de volta...mais ou menos

ai que preguiça de reiniciar os escritos no blog
aliás preguiça para tudo
de vez em quando lá consigo vencer a inércia e continuo os trabalhos relacionados com a gravura
fiz uns estudos de cor no computador e ontem comecei a fazer as misturas cromáticas
foi uma trabalheira
mas fascinante
é aliciante descobrir os tons que se conseguem com as diversas misturas de cores
não consegui exactamente o que queria de acordo com o estudo prévio
mas a cor obtida vai servir para outros estudos

as fotografias que tenho feito não prestam na sua maioria

ah e o portátil avariou-se
é a segunda vez
estava a digitalizar uma foto para o cometasyestrelas em alta resolução
como demorava muito cancelei
resultado: scanner e computador "calaram-se"

andei de volta dos computadores da minha filha para instalar a internet mas por uma razão ou outra não funcionavam como queria
fui à cave buscar o pc velhinho e é com ele que me desenvencilho agora
o portátil irá para a oficina em breve

entretanto lá se foram as festas natalícias e quejandas que me trazem sempre uma certa angústia
no sábado uma festa muito mais simpática em casa de um primo segundo
lanche compartilhado com os elementos da família da minha mãe
muito agradável sobreteudo pela presença da criançada

tenho estado atenta ao tempo e aos fenómenos que apresenta
não me refiro à meteorologia...
o outro tempo comporta-se por vezes de forma muito estranha
espreguiça-se e alonga os segundos
os minutos
as horas
os dias ainda não
são 10h 35m e o tempo ainda está nas 10h 11m

noutras alturas acelera como um corredor do dakar que este ano não haverá

aqui atrasado escrevi aqui a primeira carta ao amigo inexistente
dei-lhe asas e vesti-o de mandarim com brocados imaginados por mim
e uma trança

fartei-me de ver o mandarim voador
vou apagar o esboço e iniciar outro

talvez um peregrino... um goliardo...um mouro dos tempos de vasco da gama...
ou outro qualquer
veremos

http://f-world-blog.blogspot.com/

«A voz de João César Monteiro a falar, directamente da terra da verdade cá para baixo. Lá está ele a cavaquear com o meu pai, os dois a fumar que nem chaminés, uns parvos. Vejo-os Avenida de Roma fora, o pai com a graça muito séria, que a tinha e o outro desvairado a explicar: a menina vem comigo ver a Branca de Neve e o que não perceber pergunta-me que eu explico. A menina sou eu. Cheguei de Portugal onde comprei uma revista, passei os olhos pelos jornais, trouxe um livro de Coimbra de Matos, uma garrafa de ginginha e doces caseiros. Estava sol aí e uma espécie de calor que só agora, que aqui vivo, me parece calor. Lisboa é uma cidade belíssima e Portugal um país extraordinário cheio de aldrabões, criminosos, escritores, poetas e pessoas normais. No suplemento bla bla bla do Público, não me lembro agora do título, vinha o autor de As Benevolentes que não quer dizer, ou antes, quer dizer menos que Les Bienveillantes porque este título em francês é mais complexo, envolve a ideia de vigilância, de alguém bondoso, é certo, mas particularmente atento ao outro. No entanto, a tradução está correcta, que remédio. Se eu fosse tradutora, que também sou, traduziria um texto de Michaux de aquilo para assim: demanche na la campanha. Jarretas e jarretões se avançavam sobre a ruta de ébonário. Darvisos e Potamões fôlatravam nos campos. Uma das parmengardas, uma das Tarmósias, uma das velhas paricaridelas ramieladas e forosas se hatava para a villa. Garinetes e Farfaluvas devisavam alegremente. Se as palavras não nos servirem, servem-nos então para quê? Ainda sobre Portugal, li uma crónica da Inês Pedrosa. Nada mas realmente nada me move contra a Pedrosa, quero dizer, nada me move contra ninguém, pessoa humana alguma me dá cabo do juízo a não ser que me esteja dentro do coração e para cá chegar é trabalheira danada. O que queria dizer é que a Inês Pedrosa estava na «Caras» com o marido e dei comigo a pensar no que estava a pensar e que era em nada. Olhei e tornei a olhar: nada. Andei à procura da revista «Atlântico» mas não percebi onde se esconde ou se esgota. Tem a Atlântico? Não tem, então, olhe, é a Time Out. E descobri um fenómeno português e este é mesmo exclusivamente português: a imprensa, a televisão, a rádio e os blogs tudo está possuído pela graça de imaginar que se tem a graça natural de P. G. Wodehouse mas numa versão abrutalhada, como se fosse possível ser-se daquela fibra e também pronto a arrancar cabeças à dentada, eu sei lá. São às toneladas, pipas, por todo o lado brotam pequenos wodehouses ah ah ah ou ha ha ha que escrevem, dizem, repetem trocadilhos, dichotes, aforismos e um sem fim de larachas. Ora, nós portugueses não éramos assim armados em, Wodehouse me perdoe, carapaus de corrida hostis, markls, fedorentos, pois não? Não. Como se deu este salto para a rusticidade? Foi com o Herman, agora decadente? Como é possível ler num jornal, e este é apenas um exemplo, que António Vitorino é um vómito governamental, tal como li escrito por Cintra Torres, apenas um crítico, mero crítico em modo troglodita? De onde vem tamanha agressividade e a necessidade de a contar aos sete ventos sem patrulha interna? Não é Almada quem quer e depois de Almada é mais ou menos o deserto com Mário-Henrique Leiria aqui e ali, pessoas com pinta mas já mortas ou ainda vivas mas velhas, cansadas de tudo isto ou nas tintas para esta cegada, que pena, digo, tenho pena mas se calhar sou só eu. Resumindo, cheguei aqui meia zonza a este país de tresloucados que é a Bélgica onde flamengos flamões mais valões me parecem mansos, delicados, quase inocentes e até as ameaças terroristas são fábulas e o governo provisório uma suave anedota por todos seguida de forma bienveillante.»

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O meu blog preferido.