sexta-feira, maio 28, 2010

nada

há uns tempos atrás ao subir uma transversal reparo num corpo deitado no passeio
coberto com um cobertor cinzento
só se viam os ténis e umas pernitas quase peladas
aproximei-me e tentei ver se respirava
o cobertor não mexia
pensei que alguém estava morto e ninguém ligava
o rapaz à porta da loja fronteira informou-me que estava lá desde manhã cedo
e encolheu os ombros quando me admirei por ninguém se importar
tonta como sou angustiei-me e chegada a casa liguei para o 112
ficaram de ir lá ver
dias depois encontro o dono da loja
riu-se quando perguntei se o corpo era de um morto
é um rapaz de barbas que anda por aí

o rapaz estava com uma grande piela...

tempos depois fui ao banco
era domingo

perto das caixas multibanco e quejandas um homem dormia
olhei com atenção

respirava

nada

o homem de uns sessenta anos atravessa a rua fora da passadeira ao mesmo tempo que atira para o chão um guardanapo de papel
o motorista de uma carrinha interpela-o, olha o papel
num monovolume mais atrás gritam, porco, porco
o homem, qué que tu queres? vai-te...
vai pó...

numa parede da FBAL

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sexta-feira, maio 14, 2010

escritos

no ar volátil das brancas montanhas
as libéluas
ostracisadas

perdem o irisado das longas asas

os flocos azulados que caem
acariciam as rochas
ligeiramente moventes
à beira das frestas escancaradas

nos flancos das elevações

as pestanas sustentam congeladas
gotas
a pele das faces retalhadas
encolhe-se sobre os ossos

engelha-se

lentamente o sol levanta-se
derrama sobre as neves o seu ouro
matinal

os texugos estremecem
num qualquer lugar

onde há texugos

ffg

quinta-feira, maio 13, 2010

5.ª feira da espiga

pão, carne, azeite ouro e prata para todos (hélas! vão esvaziar-nos os bolsos)

quarta-feira, maio 12, 2010

quarta-feira, maio 05, 2010

António Franco Alexandre

como viver com estas minúsculas
intempéries, a régua sobre a mesa, a chuva
pendurada nos altos telégrafos da paciência?
o passado levanta as lajes, dentro
do ar as sapatilhas vivem a sua luz ausente.
como nos escapa o que não há ainda!, os barcos
verde claro, e o retrato da sua casa iluminada,
e a alegria desta roupa «desfeita em lágrimas»,
e o cão «piloto» enterrado na hortelã, &
as minuciosas tabuletas anunciando o mar: tudo
costumes locais, colhidos ao acaso das
estrebarias públicas. as
comendas multiplicam-se, & o município vê
ameaçadas as mais altas esperanças. um dia
as árvores aparecem com grandes frutos ocos,
e o vidro cobre as ruas, as lajes .
redondas dos passeios.
e estes navios encalhados nos ramos, que arte
os poderia sossegar? é justo que esperemos
transparentes respostas; e que algures
se acabe a transparência, e fique
uma parede lisa; e que nos doa
a memória do enigma. daí, decerto, estas casas
imóveis, com os pássaros a meio;
o rumor dos grandes diques luminosos;
e as mulheres, sentadas nas oliveiras, com
lençóis azuis atados ao cabelo. e ao lado,
a imagem representa um sarau de província, o consumo
inusitado das lareiras, a crise que aguardamos.

somos acaso a silenciosa escravatura das águas? como
obedecer ao requerimento das cortinas, quando
ao erguê-Ias a brisa avistamos o passado
de unhas redondas junto à balustrada? e outra vez
nos escapa o sítio de vastos planaltos, o tropel
dos búfalos, das esteiras secretas, do assobio
junto das portas levemente azuis.
deixarei :
que me devorem os cachimbos do sal, a madrugada
violeta de antimónio. assim me saberão
a prazer os prazeres, como as nuvens
no ascensor dos fornos siderúrgicos, ou
tardes de poder popular. depois

as palavras, e a sua sombra nos armários
da greve, escaparão ao nosso ardor.
as planícies não cabem neste modesto horóscopo
que lhe anuncia o sofrimento, ambas as mãos
surdas ao princípio do dia, e a sucessiva
descoberta dos seus fins. afastemos enquanto
é tempo os temerosos búfalos, e os cabos
entrançados do terminal eléctrico. mas
como viver com os pequenos
inconvenieptes da catástrofe? nunca
aceitarei esse pacto ditado pelas vetustas
máquinas agrícolas. a sua passagem marcou
as ruínas redondas junto à praia, e a
«superior determinação das autor
idades responsáveis»
encerrou-os no insensato mercado das províncias.
como viver com este amável búfalo das m
ais distantes alagadas pradarias ardendo?

confesso que me espanta o mapa
dos seus inadiáveis sofrimentos. a norte
cai em lentas ladeiras, em barcos
de papelão azul e marinheiros cegos. e as altas
falésias da tarde, a caminho do sul!
a leste, o mar vazio de mar espalha redes
sobre os velozes corvos submarinos: quem .
recordará o estertor das suas presas? sombrias
são as suas sementes, as naus, os realejos
azuis do amanhecer.
as cabeças
do ar estendem .véus sobre o planalto. como
esquecer o seu bafo, a sua cólera
de mastros violentados?

visitarei secreto o seu ardente
esquecimento. as ruas, primeiro inclinadas a poente
depois cinzentas à beira da água,
falam-me obscuramente dos seus seios de anil
do seu perfil de mapa transportado
em secretas mochilas, a sua
árida transparência. e os seus ossos
repousarão na areia, junto à tarde aonde
fumei a seda imóvel, e o amei, e as suas
folhias me cobriram de poeira azul. como
viver com estes dentes, esta estampa
monótona de búfalos pastando,
e as suas casas iluminadas pelo vício?
e de repente deparamos com vastos armazéns
geológicos, como deuses que dormem:
como nos surpreende o seu triunfo! como nos pesa
o áspero rumor dos telefones! não acredito
sequer no que me diz. como
viver ha dúvida insensata dos seus
variados usos? e assim
nos esquecemos pouco a pouco, frequentemente
mais jovens, mas também mais selvagens.
não conheço este campo, este vidro, esta porta. não ouço
sequer o que me diz. apenas o tropel
dos búfalos; ao fundo, nos
elucida: e então



António Franco Alexandre
Os Objectos Principais
Poemas
Assírio & Alvim

Manuela Cristóvão

A ver

sábado, maio 01, 2010

Sylvia Plath


Papoilas em julho

Pequenas papoilas, pequenas chamas infernais,
sois inofensivas?

Estremeceis. Não posso tocar-vos.
Ponho as minhas mãos por entre as chamas. Mas nada
queima.

E fico exausta quando vos vejo
estremecer assim, pregueadas e rubras como a pele da
boca.

Uma boca há pouco ensanguentada.
Pequenas orlas de sangue!

Há nela um fumo que não consigo tocar.
Onde está o vosso ópio, as vossas cápsulas nauseabundas?

Se eu pudesse esvair-me em sangue ou dormir!...
Se a minha boca conseguisse desposar uma tal ferida!

Ou os vossos licores me penetrassem, nesta cápsula de
vidro,
trazendo-me a acalmia e o silêncio.

Mas sem cor. Sem nenhuma cor.



Sylvia Plath
Pela Água
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães