domingo, março 30, 2008

escrito

há sede nos cantos da boca encerrada para obras
películas brancas brotam dos caminhos para o beijo
regos de águas paradas enxameiam as planuras
das aguarelas encaminhadas no sentido inverso
da nostalgia

a menina deixa a saia de tule branco
para usar uns calções de pele genuína
esganado que foi o animal da sua alma

saem-lhe perfumados chifres da cabeça
entontecida
os problemas respiratórios agravam-se
com a boca fechada para obras
os beijos perdem o norte
e enrolam-se nas palhas dos trigos ceifados
nas planuras aguareladas
repletas de nostalgias remanescentes

mfs

sábado, março 22, 2008

escrito

como um gavião
um milhafre
um pardal
um mosquito

qualquer alado nesta atmosfera
ou noutra
mais alta
no nível seguinte

como as asas dessas alminhas
tento cortar os átomos
gravitacionais
das cinturas planetárias
rasgar a matéria
dos pensamentos olorosos
plantar as cores dos dilúvios
convergentes

esticar sorrisos incandescentes
nos rostos angelicais
das doces criaturas
dos frios infernos

as penas irisadas
das viajeiras mariposas
escurecem os sois
apagam os traços restantes
das veredas sem areias
nem trevos
nem pedras preciosas

como um véu embalado
no vento arrebatador dos
vales escondidos
nos braços das longas
serras
como um véu
dizia eu
levanto voo
apodero-me de todas as cores
de todos os odores
encantados
presos
entre os raios da luz
que acordam
os que produzem aquele
envolvente esvoaçar
das alegrias
seráficas


m.f.s.

domingo, março 16, 2008

sábado, março 15, 2008

Malcolm Lowry

FANTASMAS NAS CASAS NOVAS


Há algo de assustador nos fantasmas das casas novas:
Os fantasmas das casas velhas já são maus quanto baste:
Mas os fantasmas das casas novas são terríveis.
A grande novidade destas novas e desoladas casas
Já seria bem terrível sem os fantasmas.
Mas os fantasmas também são novos.
Raparigas tristes com blusas azuis
E pessoas nos seus assados de Domingo
Sob a grande luz do dia, dentro destas casas novas
Em ruas onde os homens varrem o vidro partido.

Malcolm Lowry
As cantigas e outros poemas do álcool e do mar
Selecção e tradução
José Agostinho Baptista
Assírio & Alvim

Inês Lourenço

SIRENE

Bom é ter poucos amigos
poetas, para não ter de
trair a lisura do afecto
ou do texto. Mesmo esses poucos
chegam a nenhuns, se não
conseguimos elogiar epifanias
recessas, queixas piedosas ou
banalidades inócuas. Um amável
neófito muito badalado, ou um sénior
de vários prémios
literários, esperam deliciar-nos
com o verbo no cada vez mais
exíguo palco do poema
impresso. Assim ficamos sós
diante da própria e feroz espera
da negada surpresa. Como quem
adormece na ambulância
apesar da sirene.

Inês Lourenço
Disfunção lírica
& etc

escrito

O formidável tornado que me arrasta
Desfoca o calor da paisagem veneranda
Planta novas sementes nas areias inférteis
Revoluciona os beirais das andorinhas arquitectas
Vira os nenúfares do avesso com os seus sapos ambulantes
Desfolha as asas inquietas dos corvos agoirentos
E quando finalmente se desfaz deixa um sabor a fel
Um arranhado no ventre das mandrágoras
Linhas descosidas nas bainhas das donzelas

mfs

quinta-feira, março 13, 2008

Conceição Silveira






MAGMA

Exposição de Conceição Silveira

Inaugura a 13 de Março às 18 Horas

Galeria Ceutarte

Até 14 Abril


"A ciência é a inteligência do mundo; a arte, o seu coração"

Máximo Gorky

Enquanto prepara o óxido de ferro, o grés moído, os acrílicos, o carvão em pó, as areias ou outros materiais que vai aplicar nas suas telas, Conceição Silveira fá-lo com toda a delicadeza, minúcia e precisão de quem está a preparar uma poção mágica.

Durante a aplicação nas telas as formas vão surgindo com a intervenção de gestos leves e precisos, como quem estuda devagar o resultado a que pretende chegar.

As areias tomam texturas mas constituem as manchas da sua própria cor, as tintas utilizadas são simbólicas e contextuais.

No Bairro Alto e no isolamento do ateliê, com janelas abertas para o terraço, Conceição deixa entrar a luz que a encaminha para as formas que cria no encontro de todos os materiais naturais.

Com o fascínio pela intervenção abstracta que resulta de uma fiel linha de pensamento inspirada na criação e evolução do nosso planeta.

www.ceutarte.blogspot.com

Avenida de Ceuta, Ceuta-Sul, Lote 7 - loja 1
1300-254 Lisboa
917245146
(das 15 as 19 horas, de terça a sábado)

segunda-feira, março 10, 2008



Entre estas paredes sem solstícios
Estes portões sem coroas de ferro
Estas cearas de oiros antigos

Sob esta terra feita de sedimentos
Iluminados de cristais maquilhados
De meteoritos

Sob esta abóbada côncava
Como a tampa de uma prisão
Rasgada de músicas alucinadas
E alucinantes

Sobre os tapetes de alecrins lilases
Maias de alegre amarelo sedoso

Sobre os pensamentos delirantes
Das leoas esfomeadas

Dentro desta caixa de aço vermelho
Gotejante
Que se aloja em meu corpo quase
Por construir

Nessa caixa vive uma ave muda
Para sempre

Uma ave sem liberdade
Que se liberta todas as vezes
Que pressente a mudança das estações
A chegada dos cometas solitários
O rugido das leoas
A hemorragia dos pensamentos

Delirantes

mfs
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