sexta-feira, março 02, 2007

asas

fala-me

deixa-te cair nos
leitos voadores
alma em pânico
tigres presentes

dá-me a tua mão
lembra-te de mim
fala-me com os olhos
só

entrega às feras
a penugem
das garras
felinas

acalma a inquietude
que te afoga no néant
não me debites
palavras

fala-me com os olhos
só

m.f.s.

sons

os sons espreitam as vacuidades
infiltram-se nos desenhos
infantis
que penduras à tua janela

as geometrias dos sorrisos
geram arcos partidos
inscrevem sinuosidades
nas palmas das
mãos

destinos sugeridos
sem alcançar nirvanas
desenhos
de sonoras infiltrações
à tua janela

m.f.s.

quinta-feira, março 01, 2007

deusinho

especialista das profundas agonias
leva consigo os candeeiros
acesos pela luz do horizonte
salta os arbustos orvalhados
das bermas
que faço eu ali
aqui
nulle part
give me
teu coração vazio
foge especialista
especializado
nos arranhões felinos
das más vizinhanças
escondidas
nas portas de vidro
martelado
com espelhos nas ante-páras
cordões de aço nas virilhas
coloridos transparentes
nas faces e nas fauces
de centauro
pelos em tranças descabidas
ai quem me dera ser imponderável
de um só gesto levantar o universo
pois é isso o que faz
o meu deus permanente
que desejo prender
nos meus curtos braços
de sereia fora de água
deusinho ora criança
chorona
ora algoz ternurento
ore eu mesma
em suspensão

m.f.s.

mãos

com mãos de aranha te leva de rastos
o malmequer caido dos cabelos

com olhos de mosca azul
te vasculha o frágil pensamento

com bico de codorniz
te esgarça a dor morrida

com fios de ariadne
te conduz ao beco sem saida

te enleia em seus braços de leopardo
te fareja os ouvidos ensurdecidos

te engole em lento ritual
de deus voraz ciumento mudo
cego
surdo

m.f.s.

fumo

não há som na tua voz cega
pelo esquecimento
vogando entre nuvens rosadas

só o suposto roçagar das farpas
nos ouvidos atentos
ao despertar das músicas

só o rouco imaginado possível e
inaudível resplendor
da tua imagem

meu incontrolável filho do
nevoeiro das
planuras

meu desenho incompleto
esboço de esboço
grafitado
em paredes de fumo

m.f.s.

Vazio

Não escrevo, só trabalho em imagens, estou sem ideias com palavras.
As coisas da vida prática, como arrumar a casa, pôr a roupa a lavar e a louça também dão-me cabo da cabeça. Precisava de uma varinha mágica.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

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terça-feira, fevereiro 27, 2007

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segunda-feira, fevereiro 26, 2007

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panteras

as panteras
corpos tensos
para o salto
assassino

iluminam os olhos
com as cores das galáxias
nas
fronteiras do universo

disparam as garras
que se ensanguentam
nas
veias dos inocentes
predestinados

alisam a pelagem
fosforescente
nas
noites
de lua escondida

as panteras

adoçam o rosnar
saciado
retiram-se nostálgicas

esperam outra noite
outros fulgores
outros odores


m.f.s.

domingo, fevereiro 25, 2007

 
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sexta-feira, fevereiro 23, 2007

sem cor

escrevo a negro sobre
esta
folha escura folha negra
folha
negra

risco a carvão
o xisto
a carvão sobre
o
negro

sem cor este lápis
sobre sem cor
esta folha
eu
desenho
sem cor

descoloridos
os vidros
dos teus olhos
incolores

sem cor e
a
negro
o que
escrevo
nas indolores
perspicácias
intemporais

no tempo
a
negro
grafite

m.f.s.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

isto

esta praia laminar onde a espuma se borda de levezas
esta areia cor de topázios vibrantes de agudas luzes
este cheiro a mundos afundados entre ruinas e carcaças
desconstruidas

este vago palor nos olhos das brisas iluminadas
nas tardes de crepúsculos lilazes
este murmúrio que brinca em torno dos corpos refrescados

este cenário de argonautas cantantes sereias emudecidas
esta euforia das alegres filhas de abris deslizantes em cada sorriso

isto
tudo isto
segue o trajecto da bala
que perfura a moleza das carnes
a fragilidade das barreiras corpóreas
o inexorável destino das vozes
sussurantes

m.f.s.