quinta-feira, outubro 26, 2006

Escrito

as mulheres transviadas olham atentamente
as unhas quebradas
suspiram intimamente por elegâncias brejeiras
espreitam as janelas da rua da frente
olham ansiosas o telemóvel sobre a cama

qualquer campainha nas portas vizinhas
as sobressaltam
passeiam impacientes sobre os tapetes puidos
falam sozinhas utilizando impropérios
agarram no casaco e saem para a selva

m.f.s.

Escrito

o meu amigo azul-escuro tem olhos cor de luar
as orelhas são obtusas
os dentes em coração

as mãos agarram colares
pescados da boca das dóceis baleias

é de água feito o meu amigo azul-escuro


m.f.s.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Escrito

porque os caminhos estão recuados no mapa
as horas não soam nos campanários
aqui estou numa paisagem sem ídolos
sem neblinas entre as árvores

mas com árvores ao menos
povoadas de véus sombreados
de ouros recolhidos nos oceanos
de hipóteses em estantes

aqui estou

não visível talvez não detectável
pelos radares dos olhos insectívoros
vogando num mar sem corpo

aqui estou (suponho)

m.f.s.

quinta-feira, setembro 28, 2006

agonizo nesta nuvem de sois moribundos
a leste de nenhum paraíso
roendo as cordas da traição mortífera

meu coração duplo de mim

acordam as vozes os suspiros
relutantes das vítimas enclausuradas
nos braços dos carrascos enamorados

meu coração de arma ao peito

seguem-se os passos relutantes
dos candidatos à morte prematura
nas telas de vidro fosco

meu coração que se esbate

corro no horizonte dos felinos
salto na espuma das ondas amortecidas
visto a pele do lobo domesticado

m.f.s.


no meio espaço entre o sim e o não
violentos confrontos fazem cair o céu sobre as cidades
roubam rochas à lua que fica mais leve
a nos abandona

rapinam-se as cores com que os cegos
pintam as formas dos seus androides do costume
a turbulência das rosas em explosão
espalha perfumes como uma lata de spray
nos labirintos formigueiros

as alegres ratazanas dos charcos agoirentos
desenham mais um anel nas caudas peladas e flexíveis
cheiram afanosamente os detritos
põem mais um fulgor nos brilhantes olhos

as tranças das meninas violetas desfazem-se
em rios de auroras boreais

m.f.s.


a sombra
a sombra
o lusco-fusco
a silhueta

as planuras
as planuras
secas
amarelas

as linhas
os rasgões
a plenitude
o vazio

o branco
o grito
o gesto
o gesto

o eu
o tu
o nós
o vós

o eles
o eu
a luz
o túnel

a luz

m.f.s.


preciso de roma
de atenas
de tebas

os antigos deuses
abandoram-nos
levaram com eles
as velhas magias

ficámos órfãos do
maravilhoso
dos rituais misteriosos
das velhas crueldades

preciso de jerusalém
do fogoso david de
cabelos vermelhos
dançarino e tocador

guerreiro e
arranca-corações
amigo e traidor

faz-me falta gudea
e a sua túnica portadora
de história
hamurabi e o seu
olho por olho
assim como fizeres
assim terás

daniel ainda dialoga
com os leões
ainda se senta à entrada
da cidade

ainda nubla o futuro de
negras tintas
números estranhos
salvações impossíveis

penso em caim
torturado pelo ciúme
ganancioso na sua dor
de filho na margem

os deuses voltarão
de novo armados
de novo guerreiros
carrascos
das suas crias

m.f.s.

canção do soldado

a perfeita canção do soldado arma-se nos olhos dos escondidos
daqueles que cegam à luz do meio-dia

a perfeita canção do soldado soa a marchas de botas apertadas
enche-se de alegre patriotismo

a perfeita canção do soldado faz cair os pés de barro
dos ídolos instalados nos gabinetes

a perfeita canção do soldado soa a marcha fúnebre
com botas brilhantes e apertadas

m.f.s.

terça-feira, setembro 05, 2006

Novo bloco

não sabemos que vertigens nos esperam
atrás das portas fechadas das casas encantadas

sabemos que as imagens dansam como violentos
vendavais

a excelência das transparências nas
janelas dos arranha-céus
o reflexo das luzes dos néons
publicitários

os mundos pressentidos nas ruas
vielas
becos
auto-estradas
sem vigilância

isso sabemos


m.f.s.



de que sorriem as noites claras de janeiro
de cintilante frio nos céus de lua plena

de que se queixam as noites de agosto
rasgadas pelas trajectórias
de suicidas meteoritos

de que nos lembramos quando olhamos
as nossas veias

m.f.s.



correm os cavaleiros pelas estepes
levam a tiracolo os corações roubados
em noites de trovas e fingimento

exibem nas suas armaduras os cabelos cortados
às damas que por eles se diluiram
em lágrimas tépidas
inúteis
sem retorno

m.f.s.


longas caminhadas nos esperam
longe do útero materno
à saida dos corredores abismais
onde a nossa alma permanece
todavia

não se levantam as gaivotas à nossa passagem
fugaz caminhar sem sombra sem cor
sem luz
sem eco

sem sandálias percorremos a Via �pia
não podemos perguntar "Quo vadis"
sem o dom da palavra transformada
sem o som dos clarins dos mundos
em espirais de contentamento

não há descanso na busca


m.f.s.



a realidade que nos tolhe os passos a cada manhã
que nos acorda dos oníricos pensamentos
que nos massacra nas imagens a preto e cinzento
que nos engole como voraz Pantagruel

as sementes que germinam vertiginosamente
nos campos áridos das planícies do sul
as résteas de aragens perfumadas de
estrelas em implosão

os vácuos que se digladiam como touros e toureiros
na decrépita arena dos tempos em caótica dança
mãos que se prendem ao rebordo do invisível
e deixam cair as luzes dos horizontes
nos abismos

a certeza que nos prende
desenhada nas páginas
vazias do infinito

m.f.s.

quinta-feira, agosto 24, 2006

vários

já só resta uma silhueta
alguns farrapos de histórias
fios de vidas sem passado

as veredas dos campos
enchem-se de ectoplasmas
azulados

uma ou outra flor enegrece as corolas
as sombras desfazem-se em fumos
não se ouvem os relâmpagos

m.f.s.


se tens memória sabes que há outras paisagens
noutros espaços
sabes que se perdeu a inocência nos gemidos
dos anjos expulsos

lembrar-te-ás de outras cores nas silhuetas
contra os vidros estilhaçados
das fábricas abandonadas

não perseguirás sombras que sabes perdidas
para sempre
no gume das facas ponteagudas

não quererás guardar memórias arrefecidas
nos gelos dos planetas que te povoam
o universo pessoal

e intransmissível


m.f.s.


partirás também tu partirás
fugirás pelo canto do olho
sem deixar sombra

outros ares te limparão os olhos
as searas já estarão secas
quando por elas passares

tu partirás invisível
como um suspiro
silencioso
como um harpejo


m.f.s.



serei um dia a pedra precária na falésia
formada na fúria dos ventos marinhos
nos estremeções da terra inquieta

serei grão de areia nos grãos de areia dos oceanos
gelo no granizo extemporâneo sobre as aldeias do interior
talvez vento cantante sobre as cabeças das
crianças assustadas

serei um fio de cabelo que desenha grafismos
sobre os papeis das secretárias
uma folha acabada de cair em pleno verão

serei o indizível presságio no coração
dos loucos de belos olhos garras nas mãos
facas nos dentes de vampiros


m.f.s.

quarta-feira, agosto 23, 2006

não entendo

não entendo a rosa na sua altivez de flor armadilhada
melancolia camuflada em vestes de veludo oloroso

não entendo a voracidade das suas garras as serrilhas
do seu dorso de asas dentadas e verdes...verdes

não entendo porque morres tão cedo rosa de todos os sois
perfumada de desencantos

m.f.s.

sábado, agosto 12, 2006

As noivas de Maio

as noivas de maio correm pelas campinas ainda verdes
arrastando longas nuvens de véus
os ramos de flores brancas que seguram nas mãos lívidas
amarelecem e secam silenciosamente

as libélulas seguem-nas em delírios valsantes
os cucos assustam-se e voam para outros ninhos

nos degraus das escadas nas igrejas abandonadas
os noivos baixam os olhos em íntimo desgosto
desmembram os ramos de laranjeira das lapelas
desvanecem-se lentamente no cenário indiferente

m.f.s.

as mulheres

as mulheres decepam as macieiras em rituais de revitalização
os ramos choram a perda das mães deixam-se levar para as fogueiras do próximo inverno
estalam no calor das lareiras

as mulheres puxam os lenços para a frente dos olhos
espreitam as frestas solares nos céus de cinza
matam-se em milharais no sol a pino

os coelhos farejam as coelhas no cio saltam-lhes para cima e invadem a austrália
há cães com lamentos prolongados contra os horizontes de luzes nocturnas
perderam a identidade em ancestrais evoluções e sentem saudades

homens pelos campos perdidos na busca de suas sombras lançam surdas tristezas

m.f.s.

as meninas deusas

as meninas deusas de corações vermelhos
têm espinhos
e facas aguçadas nos regaços
usam coroas de flores de cera e empalidecem
quando julgam ver o amor à espreita
olham de revés as mulheres caladas
cravam as unhas nas orelhas dos que ouvem sinfonias
riem como pássaros libertos ao cair dos luares estratégicos

as meninas deusas sacodem as saias molhadas das águas donde nasceram
erguem os queixos altivos tecem sedosas teias
e agarram os homens-homens que as esperam
deseperadamente

m.f.s.

sexta-feira, agosto 11, 2006

presenças

solenes presençasas atrás dos ombros
companhias imponderáveis no cenário

nadas nadas aroma de mim distraída de mim
sombras e luzes nos horizontes enigmáticos

aroma de ti reflexo de mim
não encontro a raiz
espirais de vozes dedos de fumo aromas

linhas linhas
linhas

m.f.s.

houve uma infância

houve uma infância

lembram-se as avós das fadas dos recantos
iluminados em sótãos imaginados
falam as avós das visões dos mares internos em remoinho
das nuvens baixas que molham os rostos das crianças
das flores que se fanam antes de abrirem as corolas

dos pássaros palradores nos ramos tardios dos carvalhos

dos pavões e dos seus gritos premonitórios

recordam as avós os natais ensombrados pelos fantasmas às janelas
as procissões cheias de açúcar nos tabuleiros das oferendas
os naperons de papel sabiamente recortado

choram baixinho as avós pelas asas que perderam
nas páscoas de giestas e de pombos
contra o cetim roxo

m.f.s

quinta-feira, agosto 10, 2006

na realidade

na realidade abrasiva dos dias baços
os murmúrios das fontes escondidas
envolvem os corpos
soam como gritos despedaçantes
das carnes
arranham as paredes de marfim
dos espaços claustrofóbicos

m.f.s.

não sonho

não sonho o desfazer das nuvens o corropio dos insectos os sons das madrugadas
não tenho no armário onde escondo os lírios roxos dos campos do sul a
lupa que aumenta as dores dos anjos sem asas e sem reflexos nos espelhos

nãoo prevejo o ataque dos vampiros desesperados a oclusão da luz nos olhos enevoados
a chuva após os ritos sacrificiais das virgens extasiadas
não vislumbro o altar em chamas na montanha lunar os olhos dos animais perseguidos
nos bosques dos centauros

sonho que não sonho

m.f.s.

eu te vejo

eu que te vejo ao meio-dia sob o sol de agosto
persigo a tua sombra mínima sobre as rochas em fogo

eu que te invento em cores pálidas na planície
capto o teu pensamento a quatro dimensões

preso no futuro te vejo abandonado
tu a quem o destino roubou a alma o corpo a essência

sonho-te em transparências de rarefeitos ares
a cavalo no vento do deserto incomensurável

na palma da minha mão ainda tenho as cinzas
da paisagem por ti desenhada no meu peito

m.f.s.

Remoto

remoto era o caminho
minha ilusão

tortuoso era

o que queres dizer
não dizes meu
sofrimento

vazio estás
nesta paisagem
vazio és

vazia me deixas
minha alma
parada aqui

m.f.s.

Amuleto

guardei o amuleto junto dos lírios
na gaveta escondida
deitei-me de olhos nos cometas
as brisas afagando os meus cabelos

deixei cair as imagens que me deste
enquanto éramos viajantes
nas dimensões desconhecidas
- sou eu disseste antes de partir

de lí­rio no peito plantado por mim
o amuleto abandonado na minha mão
fios de prata nos cabelos
veredas no rosto entristecido

caem gotas premonitórias
no interior de mim sentada
na minha sombra nocturna

sorrio não sei porquê

m.f.s.