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quinta-feira, julho 21, 2011

troveja

Troveja
Troveja
Ainda não
Chove
Talvez não chova

A mulher limpa
As mãos
Ao avental que
Ainda não comprou

Não havia aventais
na loja

a mulher quer um avental
com grandes bolsos
onde se amontoarão
os lenços de papel
os lápis e canetas
com que desenha
papeis de rebuçados

troveja
e
nunca
mais
chove

cães ladram
ao lado
o vizinho da frente tem dois
carrões

de vez em quando passa um idoso
na sua trotinete

esguio
cabelo às cinzas
direito
só se lhe vê
o perfil
não olha para os lados

a trovoada
está mais próxima

a ventoinha faz
um barulho
antipático

Há ruídos
Incessantes
Enervantes

Penso nas
Linhas
Belas coisas
Amo as linhas
Acalmam-me
Enquanto espero
Que a chuva
Desabe sobre
A relva
As flores
As árvores


Um santo com outro
Santo
Ao ombro

Um santo está pendurado

Numa cruz

Dizem que a culpa
É nossa

A mulher volta
A pensar onde
Arranjar um avental

Os aventais dos pintores
Sujam-se de tintas
A mulher gosta
De aventais
De pintores


chove

jardim a oriente


No pequeno jardim voltairiano em forma de C
de cantos em ângulo recto, passo algum tempo do meu dia.
Observo as flores. Há pouco uma borboleta resolveu poisar numa zínia enquanto eu verificava o avanço da idade nalgumas das flores. Ainda a cumprimentei e perguntei-lhe se pensava provocar um tufão na China com um bater de asas. Indiferente continuou a sua refeição.
Ontem da varanda vi um lagarto lentamente a deslizar sobre a relva. Corri a buscar a máquina fotográfica, mas já não fui a tempo, deve ter apressado o passo.
Por volta das cinco da tarde rego as plantas e aproveito para lavar as zonas cimentadas.
Queria começar uma pequena horta mas tenho que me informar como fazê-lo.
Ando também a elaborar ideias sobre materiais para as pinturas. Preciso de um almofariz. Bem que procurei hoje no ikea, mas não encontrei.
Semeei há tempos sementes de papaias. Parece que alguma coisa está a nascer no “viveiro”...
A “alegria da casa” é uma flor que tem acompanhado várias fases da minha vida. Na Ajuda tive uma que se foi mantendo alguns anos e que encontrei na rua. Eram um ramito junto a um muro da rua, caído talvez de alguma varanda. A hera que cobriu grande parte da parede do quintal também foi encontrada na rua.


Aqui, a palmeira que fica na rua junto ao portão sofreu algum empurrão que lhe quebrou a copa. Era tão bonita e elegante.
Já está na hora da rega do jardim.

segunda-feira, julho 18, 2011

eis

Eu acabo a tua litania com uma flor atrás da orelha
Fulgurante anil reflectido nas íris dos meus olhos
Ausentes das paisagens
Das montanhas em silêncio
Dos mares que rugem

Invento novos ritmos de bambus
Percussões rasas de sons cavos
Harmonias em síncopes esfumadas
E trémulas
Como o calor que sobe das estradas

Corto as copas das árvores com o roçar de leves e olorosas
Cadências

Gosto de fechar os olhos
E ver as formas Oníricas que se
Desenham nas pálpebras interiores
A passagem das sombras de insectos
De capim na sua dança tropical
Os pólens pressentidos
Nos campos onde a alma se deita

O som que se espalha
No céu de brilhos nublados
Levanta-me do sonho desperto
Lento
Volátil

ffg

escrevinhação


Tudo o que for azul será colocado à direita do trono
Seguir-se-ão os amarelos que falam o
francês cantante de Marselha
Os roxos das Páscoas madeirenses
Com glicínias carregadas
De odores que nos lançam nas flutuações
Meteorológicas
Com cintilações de chuvas de granizo
Os vermelhos serão anulados
Pelos verdes flamantes
Como bandeiras lusitanas
Nos altos postes do orgulho nacional

Restarão as luzes velozes
Que conduzem ao outro universo
Longe/perto
Luzes que voam para o vermelho
Para o azul
Para o branco neutral

Quando as folhas das palmeiras gritaram
as dores do vento
Teremos a crucificação do anho
Encolhido na sua doce pelagem de infante
O sangue será o aval da salvação
A carne será digerida pelos fieis
Estáticos
Contra os vitrais dos tempos que
nunca se movem

ffg

sexta-feira, dezembro 10, 2010

escrito

se a neblina estende os seus véus
ao longo das campinas infinitas
sobra as nossas cabeças pairam
os corvos

as silhuetas das árvores encanecidas
bordam os horizontes enigmáticos
para além dos quais tudo acontece

as rapinas aves dos nossos pesadelos
continuam o seu vai-vem gráfico
agarram nas suas medonhas garras
as incautas crias das suas presumíveis
vítimas

não há raio de luz que rompa a treva
mumificada como manta
de espartano tecido
como capote de monge estático
na sua visão deslumbrada

enquanto os corvos permanecem
escondidos no negrume latente

mfs

sábado, novembro 20, 2010

escrito

24-07-2005

sob os pés se despenham as horas
o tempo desfaz-se em nuvens de nada

sou transparente

não me ilumina a luz do dia
nem os relampejos das estrelas
nem a prata lunar me toca

sou invisível

uma pena levemente me toca

sou de mármore

a água penetra em minhas veias

sou um rio

as pupilas rasgam os negros nocturnos

sou asfalto

as asas que se fecham pra morrer
cobrem os corpos abandonados das silfides
os centauros murmuram cantos sagrados

sou um desenho

há sereias nas cascatas
esfinges nos penhascos
Orfeu toca a sua flauta

sou uma linha

m.f.s.
já sangravam os céus e eu caía
eu caía

abriram-se rochas de majestosa rudeza
e eu caía

as asas dos ventos aplanavam os campos
os horizontes fugiam

a paisagem contorcia-se
reflectida no meu corpo
que caía

as fontes gritavam em golfadas vermelhas
que sobre mim caíam

que sobre mim caíam

mfs

escrito

25-05-2005

talvez não se saiba nunca porquê
como
para quê

o movimento é perpétuo
nos nossos átomos
nas circunvalações
do nosso cérebro

no cair das células
na paisagem
onde pernoitamos

talvez já saibamos tudo
e não saibamos

sentimos o corpo
que se transforma
em outras energias

amamos as outras vidas
donde viemos
e para onde iremos

mergulhamos nas ondas
dos outros eus

dos outros que nos reflectem
e a quem reflectimos

talvez ainda não tenhamos
descoberto
o nosso parentesco
com aquele
que contestamos

talvez esteja escondido
nas noites da ignorância
o elo que nos transforma
uns nos outros


m.f.s.

escrito

Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2008

escrito

cada manhã o vento varre a luz matinal engolindo
nas suas fauces o temor das crianças
o gorgulhar das águas tempestuosas
e sonha-se com os invernos de gelo e neve
chuvas furiosas sobre lagos escurecidos
lagartos verdes enregelados
andorinhas que voam para o calor
flores por nascer frutos ainda remotos

arranha-se uma qualquer melodia num piano
envelhecido e renitente melancólico quanto baste
os dedos hesitam sobre o teclado desistem
coçam a cabeça abandonam os sons suspensos
na atmosfera ainda quente da noite passada

o telefone parece retinir impernitentemente
abafando a tosse do ancião à porta da cozinha
os gatos estão milagrosamente quietos
cheira a café

mfs

quinta-feira, novembro 04, 2010

escrevinhação

as roupas
as roupas estão
rotas

desfeitas em rasgões

esgarçadas

meias esburacadas
luvas engelhadas
em rugas circunflexas
botões perdidos
nas escadas
do metro

fiapos
as roupas estão
em fiapos
que a aragem
movimenta

a cor estraçalhada

os ombros
as costas gastas
os dedos dos pés
das mãos
alvejam
nos buracos
das roupas
que se desfazem
em ritmo
escanzelado

mfs

terça-feira, agosto 24, 2010

escrito

Vou correr sobre o meu caminho de brasas
Agarrarei as asas dos corvos do meu céu

Deslizarei pelas encostas relvadas dos meus sonhos
Encontrar-me-ei no sopé das fragas marítimas

As cores crepusculares enrolar-se-ão nas penugens flutuantes
Verei em 3D o gargalhar das gárgulas

As cortinas de nuvens amarelas vencerão os meus olhos
Nos meus pés o sangue desenhará papoilas

Deixarei as paisagens circundantes
Pelas superfícies marcianas a preto e branco

mfs

domingo, junho 06, 2010

escrito

no silêncio das paisagens
das mulheres que desesperam
fermentam as agulhas enferrujadas
que bordam os contornos
dos vazios enevoados

que se agarram às bainhas
das saias envelhecidas
e sugerem pássaros bordados a seda
a desfazerem-se em farrapos de rendas

que se enterram nos tornozelos
fragilizados que aquiles lhes doou

agulhas vespertinas
que contra o céu se iluminam
como fogo de artifício
causador de cegueiras momentâneas
e súbitos terrores

as mulheres que desesperam
espreitam os horizontes de águas
imaginam naus bojudas
encimadas por bandeiras mortíferas

lembram-se de catrinetas
cogitam distraidamente
sentadas nas rochas
com laranjas no colo

ffg

quinta-feira, outubro 15, 2009

escrito

Haverá um dia haverá
Em que as jornadas pelos
caminhos sinuosos
Onde me vejo rodeada de
amigáveis insectos
Terão um fim
Um fim sem fim

Uma nebulosa porta
I suppose
Um pressentimento

Talvez a tal luz fulgurante e sedutora
Talvez fantasmas ternurentos
Longas filas de anjos resplandescentes
Músicas inéditas

Talvez de vez em quando dê um salto
Até este mundo
Assombre a casa da minha infância
Onde fui feliz eternamente
Visite os sonhos dos que me não amaram
E dos que ainda me amam

Talvez aprenda a tocar nos ombros
Dos distraídos
Para que saibam
Que estou
Ali


mffgs

quarta-feira, agosto 05, 2009

escrevinhando


como percorrer as veredas invisíveis do meu destino
sem destino

é como cair de um rochedo de vidro opaco
sobre um pântano de alegres efervescências

sem sentido

sem sentidos

sem brilhos nas espaldas

com largas dobras
nas peles remanescentes

prontas para a fatal incineração
nas piras das índias inocentes
à beira de rios universais

nos princípios do princípio
até ao eterno fim das paisagens
iluminadas

mfs

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

escrito voador

Visto-me de infra-vermelhos
Para ninguém ver
As cicatrizes
AS REDUNDÂNCIAS
Das minHAs saias de açafrão
O maquinismo dos meus
cotovelos cromados

os remendos loiros
nas pontas das unhas
dos pés desgastados
pelo sucessivo
uso
de todos estes anos
em consonância
com as escadas para o céu
de joão feijão
e as minúsculas criaturas
de gulliver

os meus tornozelos
zelam pelo meu
equilíbrio
quando mudo de roupas
para o lados dos
ultra-violetas
e salto para a ilha voadora de swift

há no arco-íris da minha janela
uma asa de abelha
algumas socas de madeira
de varinas fora de tempo
GRITINHOS DE crocodilos-bébés
Retalhos de csi de todos
Os canais de entretenimento
Pelo susto
O horror
A figuração da treva
Nas costas nas entranhas
Nos cérebros
Da besta

Há uma seta que desfaz
As cores alinhadas
As combina
As faz condizer
Com o cenário previsto

mfs

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

escrito entristecido

as mulheres que se deitam à noite
nos quartos levemente amarelecidos do fumo
dos cigarros
daqueles homens que as
frequentam
lhes exigem excitações inéditas
lhes gritam
lhes choram nos colos
e soluçam
desamparados
lhes atiram alguns euros
sobre os lençois encardidos
das camas murchas

as mulheres de todos os homens e mais
um
e menos um
que nem sonhos têm
pois morrem todos os dias
e noites
nas gélidas camas

essas mulheres são como sombras
translúcidas

não se recortam em nenhum
horizonte
em paisagem alguma

não desenham corações
nas janelas embaciadas
quando há inverno
não esperam os fulgores
dos ocasos
nos verões intermináveis

e só cheiram as flores dos
anúncios televisivos
dos outdoors convidativos
das revistas cor de rosa que
às vezes espreitam
nos quiosques superlotados
entre notícias
artes banais
economias em desastres
revistas informáticas
vídeos mais baratos
armadilhas de mexericos
de rídiculas damas botoxadas
nas maçãs
dos rostos anciãos


as mulheres das noites paralelas
dos dias de sonos agitados
com filhos na berma das cidades
pais velhos em aldeias
quase extintas
elas também
permanentemente
extintas
corpos de almas esvoaçantes
buscam não sabem o quê
porque já nada sabem
excepto que lhes é proibido
ser mulheres

mfs

quarta-feira, janeiro 28, 2009

escrito mal amanhado

escrever nas unhas as vidas
da nossa vida
os caminhos sem encruzilhadas
os vagabundos pensamentos sem asas
escrever os homens enrolados
nos ventres das mães
com medo das outras mães
que os governam em casa
frágeis rapazinhos de gordas bochechas
olhos azulados pelos nevoeiros
óculos sem retorno

escrever as sereias
mudas
em ondulantes devaneios
nas encostas das montanhas parideiras
de águas detergentes

escrever e engolir


mfs

quinta-feira, janeiro 22, 2009

escrito vadio

gostava de inventar palavras para outros pronunciarem
gulosamente
de olhos fechados

quando o sol fechava as portas
enfronhava-se nas trevas da casa como a toupeira
em terrosos túneis

ao lavar o rosto olhava-se no espelho
mimava cenas semelhantes de filmes
concedia à sua perfomance
o oscar espelhado
o globo de ouro velho
o cristal dos artistas inocentes

tudo lamentações
e oníricas visões de narciso gotejante

mfs

sexta-feira, janeiro 16, 2009

escrito

há uma sombra na voz do cantor solitário
e tu murmuras poemas inéditos
aos ouvidos das surdas crianças

foge de ti enquanto ainda houver
uma vereda na tua paisagem

mfs

domingo, dezembro 21, 2008

escrito

os homens não fazem a barba desde o luto
e sobre os cabelos emaranhados depositaram cinzas
constroem armadilhas para as aranhas fugidas dos ninhos

bebem águas tintas de desgostos
enrolam lenços diáfanos nos pescoços
cintos sem fivelas de vidros resplandescentes
sobre as ancas

os homens ainda não sabem chorar
e as teias dos inimigos enlaçam-lhes os tornozelos
recolhem nas mãos arroxeadas
o ar que lhes sai dos pulmões cansados

esquecem as aranhas e as teias
as cinzas os desgostos as fivelas
fecham os olhos amarelecidos pelo olvido

os homens
ainda
não sabem
chorar

mfs

domingo, novembro 30, 2008

deambulações histriónicas

os dias permaneciam estampados nos vidros das janelas
em mutações atmosféricas com riscos de aviões super-sónicos
no écran do infinito azul

mfs