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sábado, setembro 10, 2011

Aben Zaidum

"A QUE ERAS EM ZAHRÁ..."


A que eras em Zahrá: saudade de lembrar-te,
num límpido horizonte e rebrilhando a terra,

e quando a brisa à tarde tanto enlanguescia,
como se em dó de mim, num langor de piedade,

e sorria o jardim em prateadas águas
qual se dos véus houveras desnudado os seios!

Um dia igual aos de prazer que me fugiram:
noites furtando o gozo à sorte que dormia,

enganado com flores me seduzindo o olhar,
delas correndo o orvalho até que se curvavam,

chorando a minha insónia as hastes tão exaustas,
que as lágrimas fugiam num brilhar perdido.

Uma rosa fulgia no jardim esbraseado,
e o meio-dia cegava ainda mais, por ela.

Perfumado um nenúfar deslizou num amplexo,
qual quem tonto de sono a madrugada acorda.

Tudo criava em mim uma saudade imensa
que um seio ainda oprimido mal sabia ter.

Se a morte a nossa união houvera consumado:
oh feliz entre os dias tão glorioso dia!

Que Deus conceda a paz ao peito que a saudade
um dia encheu mas não levou nas suas asas!

Se a brisa então soprando, a ti me transportara,
um jovem te trouxera gasto pela vida.

Nem do que tenho o bem de maior preço, amor
- se de amantes se diz que podem possuir -,

seria justa paga desse puro ardor
que nos guiava aos recessos do jardim mais íntimo.

Louvado seja Deus por tempo que tivemos,
de que te consolaste, e de que fiel eu vivo.

Aben Zaidum
Tradução de Jorge de Sena

António Borges Coelho

Deambulas pela noite
como cão ao abandono
enquanto num alto andar
um homem cercado
quer dormir e ficar acordado

Nem só os cães esgravatam
homens procuram batatas

Vestida de noite a morte passeia
entre automóveis vazios
as órbitas espreitam nas janelas apagadas
e vem com passos de ladrão
ou sátiro

António Borges Coelho
Nocturno
Ao Rés da Terra
Caminho
Da Poesia
2002

sábado, junho 11, 2011

Maria do Sameiro Barroso

VELADO NOME

Não sei como se inicia uma ou outra lua
Na lucidez bizarra à beira
dos abismos, ravinas,
precípicios.

Vivendo na coreografia perfeita das asas
e dos nomes.
No peito de opúncias.
Flores.

No cimo de uma paisagem desolada.
Sobre campânulas
que rodam na face
incendiada.

Em frente às labaredas. Da febre que
fere e estilhaça.
Percorrendo,
nos olhos das estrelas,

as gelosias corridas, as fendas de luz.
Um só vislumbre
e a chuva aproxima-se
revolvendo
a essência mole, o molde de gesso.
Abrindo a amplitude
imensa
ao velado nome
que canta o peso, a volúpia, a leveza
extrema.

O corpo destruído.

No âmago da dália

( Jardins Imperfeitos)

Maria do Sameiro Barroso
Millenium
77 Vozes de Poetas Portugueses
Universitária Editora

Rosa Alice Branco

11. PINTURA

1. O CHEIRO DO ORVALHO

As palavras chamam-me para dentro do poema
e arrastam-te comigo. Tanto vento
que se levantou de repente a esta hora.
Dormias?
Redemoinho entre as letras como um catavento
e sei confusamente que não estamos aqui
como sei que nunca viste uma árvore
ou um telhado cheio de pássaros
para podermos trocar a nossa ignorância
como um pacto de amor
que nos acorda quando nasce o dia.
Soletramos então a palavra «árvore»
que nasce no vidro da janela
mas já estamos longe
no cimo do papel
como duas silhuetas
absorvidas a colher o cheiro da terra.

E contudo as palavras mexem-se,
ouço as vozes atravessarem a lareira
o ressoar das letras espaçadas
as cores quentes à volta do fogo.
Não, não dormias a essa hora.
Eras tu que me arrastavas para dentro do poema
quando o vento dançava nos meus passos.
E eu pensava nas cores das faias
e como as folhas se juntam lá em cima
ou então pensava no grito do telhado
cheio de pássaros no papel
para te dar tudo
o que nunca vimos e ouvimos
na simplicidade
do orvalho da manhã.

Rosa Alice Branco
soletrar o dia
obra poética
edições quasi

terça-feira, dezembro 07, 2010

Adília Lopes

POST SCRIPTUM

Não posso escrever
como escrevia
antigamente
os meus temas
gastaram-se
como o azeite das lâmpadas
(e só as virgens-formigas
desposam o Noivo)
tudo foi escrito por mim
e tudo está por escrever
mas fora dos poemas não há poeta
o autor em carne e osso foi-se
o autógrafo também
das reacções químicas acabadas
ficou opó da ampulheta
não vivo para escrever
escrever é aliás viver
como ter um amor
ou uma dor de dentes
que nos podem inspirar
ou não
os cadernos pautados do meu diário
afogam-se no rio como os ratos
encantados pelo flautista
a poesia é luz e fumo
com os louros da minha coroa
tempero o guisado
que como sozinha
Fábio fez das cinzas
da sua dama
uma ampulheta
e deste feito um soneto
artefacto feito de dor
como a ampulheta

Adília Lopes
COLÓQUIO
Letras
número 125/126 Julho-Dezembro 1992

quinta-feira, março 18, 2010

Pablo Neruda, poeta e resistente

Bom, falam-me em Neruda e lembro-me de alguns dos seus poemas

Sou o tigre.
Observo-te entre as folhas
Largas como lingotes
de mineral molhado.
O rio branco cresce
debaixo da neblina. Chegas.

Mergulhas desnuda.
Espero.

Então num salto
de fogo, sangue, dentes,
de um golpe, atiro-me
sobre o teu peito, as tuas ancas.
Bebo o teu sangue, quebro
os teus membros um a um.

E fico na floresta
velando durante anos
os teus ossos, as tuas cinzas,
imóvel, longe
do ódio e da cólera,
desarmado na tua morte,
atravessado pelas lianas
imóvel, longe
do ódio e da cólera
desarmado na tua morte,
atravessado pelas lianas,
imóvel à chuva,
sentinela implacável
do meu amor assassino.


Pablo Neruda


QUERO CASTIGO


Eles trouxeram aqui as espingardas carregadas
de pólvora, eles mandaram o extermínio macabro,
eles encontraram aqui um povo que cantava,
um povo por dever e por amor reunido.
E a rapariga franzina tombou com a sua bandeira
e o jovem sorridente caiu a seu lado ferido,
e o povo viu cair os mortos
com fúria e dor.
Então, no local
onde caíram os assassinados,
tombaram as bandeiras empapadas de sangue
para erguerem-se de novo frente aos assassinos.
Por esses mortos, nossos mortos,
peço castigo.

Para os que de sangue salpicaram a pátria,
peço castigo.

Para o verdugo que mandou esta morte,
peço castigo.

Para o traidor que beneficiou deste crime,
peço castigo.

Para o que ordenou esta agonia,
peço castigo.

Para os que defenderam este crime,
peço castigo.

Não quero que me dêem a mão
empapada com o nosso sangue.
Peço castigo.

Não os quero embaixadores,
nem nas suas casas tranquilos,
quero-os ver aqui julgados
nesta praça, neste local.

Quero castigo.

PABLO NERUDA
Chile, 1904 . 1973
Notícias da Raiva
Edições Dinossauro
2003

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.

Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.


Pablo Neruda
Vinte Poemas de Amor - XX
tradução de Fernando Assis Pacheco

quinta-feira, março 11, 2010

Ruy Belo

EFEITOS SECUNDÁRIOS

É bom estarmos atentos ao rodar do tempo
O outono por exemplo tem recantos entre
dia e noite ao pé de certos troncos indecisos
cercados um por um de sombras envolventes

Rente às árvores vamos, húmidos humildes
Dizem que é outono. Mas que época do ano
toca nestas paredes que roçamos
como gente que vai à sua vida
e não avista o mar, afinal símbolo de quanto quer,
ó Deus, ó mais redonda boca para os nomes das coisas
para o nome do homem ou o homem do homem?

Banho lustral de ausência é este tempo
de pés postos na terra em puro esquecimento
E vamo-nos perdendo de nós mesmos, vamos
dispersos em bocados, vítimas do vento
ficando aqui, ali, nalgum lugar que amamos
Nada mais do que terra há quem ao corpo nos prometa
Quem somos? Que dizemos?
Reúna-nos um dia o toque da trombeta

Ruy Belo
Boca Bilingue
Obra Poética
Editorial Presença

Ruy Duarte de Carvalho

EXERCÍCIOS DE CRUELDADE

*

As crianças
carregadas de destino
batráquios prisioneiros do pó e da vidraça
alastram no papel o som e a cor dos seus débeis sorrisos.

Arde-lhes já na face
o circunflexo acento do desgosto-
a reprimida força da malícia atenta.

Miram-nos frias do fundo da película-

crescem-lhes dentes de apetite oculto
mandibulam ameaças de domínio
destroem uma a uma
as flores da idade
e cobrem-se escarninhas
de pêlos urticantes.

Exibem unhas curvas
afiadas para a disputa
e denunciam intenções de assalto
na lisa mansidão
com que protegem a morosa espera.

As crianças tiranizam o espaço que atingiram.
Possessas
dilaceram crianças de outras raças -
assumem, rancorosas, o desdém na face
e inquirem
inocentes
se os pretos têm nome.

Ruy Duarte de Carvalho
LAVRA
Poesia reunida 1970/2000
Cotovi

Bulat Okudjava

AH, TU, BALÃO AZUL

Ah, tu, balão azul,
triste planeta!
Que fizemos nós contigo?
Para que é tudo isto?
Todos patinhamos em sangue,
em vez de fazer qualquer coisa...

Rios, cheios de amor,
podeis transbordar.

Bulat Okudjava

terça-feira, fevereiro 16, 2010

LUÍS ADRIANO CARLOS

COLÓQUIO DOS AMANTES À PORTA DO TEMPLO


Começa, não esperes por mim, atravessa a porta para além do fim,

recolhe o odor da flor no canto do jardim, começa como quem regressa

de dentro de mim quando a vida acelera, não esperes enquanto esperas,

recomeça do zero teu discurso austero em que aos poucos desespero.


Começa, reza por mim esta sílaba errática numa língua sem gramática,

soletra cada palavra como quem grava uma oitava nas águas com que se lava,

decifra todas as letras que o vento expira nas gretas da solidão, respira sem mim

enquanto me trazes dentro do pulmão, começa a caminhar na pura imaterialidade

como quem atravessa o fim no princípio mais distante de qualquer cidade.


Começa, não esperes enquanto esperas, começa e recomeça depois de recomeçares,

safah, toma esta palavra em forma de porta iluminada, língua ardendo nos lábios,

davar, toma esta palavra em forma de torre insuflada, língua mordendo os lábios,

graça infinita de ser ave, garça branca que comove a sarça ardente quando chove.


Começa, não esperes por ti, começa e atravessa a porta para além de mim,

respira-me no perfume do jardim mas leva-me no teu lume para além do fim,

não esperes senão o que te espera, e no entanto espera do sal da terra

o verão incorruptível da primavera e a paixão do tempo imóvel que acelera,

habita para além de ti o infinito e reza no canto infeliz a sílaba do teu grito.


Começa, espera por mim, começa de súbito o meu recomeço antes de ser hábito,

começa e reinventa esta palavra como se fosse lava da sarça ardendo em cada lábio,

começa e soletra cada letra, letra a letra, e no fim desperta como quem se oferta,

para que tudo em nós recomece e cante e reze a nossa primeira prece.


Começa, espera ou não por mim em ti, mas começa em ti dentro de mim.

LUÍS ADRIANO CARLOS

domingo, janeiro 17, 2010

António Ramos Rosa

Estou vivo e escrevo sol

Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maraviha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

António Ramos Rosa
de Estou Vivo E Escrevo Sol(1966)

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Thomas Bernard

Morte e tomilho

A terra cheirava a tomilho e a morte,
a feno e a vento,
do regato elevou-se a alma da minha mãe
e foi por cima das árvores como nos tempos
da Primavera desanuviada e amarga.
A terra cheirava a tomilho e a morte
e ninguém veio com um cesto,
para a levar para casa.
Porque o porco é muito valioso,
não levaram terra para casa,
não levaram a terra que cheirava a morte e a tomilho.
Olhei por entre os carvalhos
para a aldeia lá em baixo.
Ouvi as trompetes da quermesse
e os trombones da carne defumada,
e ouvi estalar as salsichas
e as tábuas do recinto do baile
na risada do padre.
Sobre uma pedra
dormi eu passados mil anos.
Ninguém veio buscar um bocado de terra
que cheirava a morte e a tomilho.


Thomas Bernard
NA TERRA E NO INFERNO
Assírio & Alvim

domingo, janeiro 10, 2010

Antonio Gamoneda

Pranto na lucidez, verdades côncavas:

«Não vale nada a vida, / a vida não vale nada».

Recordai esta canção antes de olhar meus olhos;

olhai meus olhos no instante da neve.


Antonio Gamoneda
Livro do Frio
tradução e nota biográfica
José Bento
Assírio & Alvim

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Ana Luísa Amaral

Revisitações

Se eu como ele, o meu amor
tão anterior assim ao próprio amor,
o cajado e a pele por simbólica mão,
e o perfume que em mim,
então,

talvez eu te fizesse
sentir sem que o soubesse,
ao certo,
a chamamento à noite, falar
muito de noite e nela adormecer.
Longuíssima e final. Mas nova sempre.
Reencarnando os tempos e as datas.

De memórias tão curtas. E do fim
mais final do esquecimento.
Ter encontrado há pouco coisa dada
há quantos anos? Trinta?
«Não te esqueças de mim.».

de Às Vezes o Paraíso

Ana Luísa Amaral
Anos 90 e agora
Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa
edições quasi

quinta-feira, novembro 12, 2009

Daniel Faria

Há uma Mulher a Morrer Sentada

Há uma mulher a morrer sentada
Uma planta depois de muito tempo
Dorme sossegadamente
Como cisne que se prepara
Para cantar

Ela está sentada à janela. Sei que nunca
Mais se levantará para abri-la
Porque está sentada do lado de fora
E nenhum de nós pode trazê-la para dentro

Ela é tão bonita ao relento
Inesgotável

É tão leve como um cisne em pensamento
E está sobre as águas
É um nenúfar, é um fluir já anterior
Ao tempo

Sei que não posso chamá-la das margens

Daniel Faria, in "Dos Líquidos"

Mário Cesariny

Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras,surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.


Mário Cesariny

sábado, março 15, 2008

Malcolm Lowry

FANTASMAS NAS CASAS NOVAS


Há algo de assustador nos fantasmas das casas novas:
Os fantasmas das casas velhas já são maus quanto baste:
Mas os fantasmas das casas novas são terríveis.
A grande novidade destas novas e desoladas casas
Já seria bem terrível sem os fantasmas.
Mas os fantasmas também são novos.
Raparigas tristes com blusas azuis
E pessoas nos seus assados de Domingo
Sob a grande luz do dia, dentro destas casas novas
Em ruas onde os homens varrem o vidro partido.

Malcolm Lowry
As cantigas e outros poemas do álcool e do mar
Selecção e tradução
José Agostinho Baptista
Assírio & Alvim

Inês Lourenço

SIRENE

Bom é ter poucos amigos
poetas, para não ter de
trair a lisura do afecto
ou do texto. Mesmo esses poucos
chegam a nenhuns, se não
conseguimos elogiar epifanias
recessas, queixas piedosas ou
banalidades inócuas. Um amável
neófito muito badalado, ou um sénior
de vários prémios
literários, esperam deliciar-nos
com o verbo no cada vez mais
exíguo palco do poema
impresso. Assim ficamos sós
diante da própria e feroz espera
da negada surpresa. Como quem
adormece na ambulância
apesar da sirene.

Inês Lourenço
Disfunção lírica
& etc

sábado, fevereiro 09, 2008

Fiama Hasse Pais Brandão

A PORTA BRANCA


Por detrás desta porta,
uma de todas as portas que para mim se abrem e se fecham,
estou eu ou o universo que eu penso.
Deste meu lado, dois olhos que vigiam
os fenómenos naturais, incluindo a celeste mecânica
e as sociedades humanas, sedentárias e transumantes.

Mas podem os olhos fazer a sua enumeração,
e pode o pensado universo infindamente ir-se,
que para mim o que hoje importa
é aquela olhada vaga porta.

Que ela seja só como a vejo, a porta branca,
com duas almofadas em recorte,
lançada devagar sobre o vão do jardim,
onde o gato, por uma fenda aberta
pela sua pata, tenta ver-me,
tão alheio a versos e a universos.

Fiama Hassa Pais Brandão
Cenas Vivas
Relógio d´Água

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

João Camilo

ERVAS

Na ausência do jardineiro crescem
nas traseiras da casa as ervas,
daninhas e de todas as espécies.
A música de piano ressuscita
o tempo antigo (à janela ele
olhava a rua e pensava:
estou perdido, definitivamente
perdido de mim mesmo e da vida).
Do barco negro da noite começaram
a sair os monstros de rosto
indecifrável. Tinham a forma
suave da nostalgia, mas nos seus
corpos enrugados brilhavam as
marcas do incêndio, pesadelo
nunca apagado. Tinha acreditado
no destino previsível, no futuro
preparado de antemão. Vivera,
na felicidade e no tédio, sem
o perturbar a frustração.
Sucederam-se as estaçõe,
no entanto. E o amor, ausente,
deixou de iluminar as suas feições.
Conferia-lhe um poder sombrio a
esperança. Atenuado e sufocado,
o desespero transportava de objecto
em objecto, na procura do ser, o seu
olhar desfocado. O que é a presença
e o que é a ausência? Decida quem
souber, quem quiser correr o risco.
Ele identificava os fantasmas. Mas
distinguia o presente do passado, o
que via do que recordava, os vivos
dos mortos? Acrescentou: a minha lucidez
foi diferida. Como podia entender
então o que só agora se revelava à
sua mal exercitada necessidade de
compreender? Ausente, aquela
que tomara conta do seu coração
comandava os sentimentos.
Transformava-se o amador em
refém do objecto de obsessão.
E quem poderia separar um rosto
de outro rosto? Fiquei sem futuro,
murmurou ele. Olhava pela janela.
Na ausência daquela que domina
o mestre com o seu amor, as
ervas crescem, ervas de todas
as espécies, nos recantos do
jardim e nos canteiros
de terra do vaso do espírito.

João Camilo
O som atinge o cimo das montanhas
OVNI