cada manhã o vento varre a luz matinal engolindo
nas suas fauces o temor das crianças
o gorgulhar das águas tempestuosas
e sonha-se com os invernos de gelo e neve
chuvas furiosas sobre lagos escurecidos
lagartos verdes enregelados
andorinhas que voam para o calor
flores por nascer frutos ainda remotos
arranha-se uma qualquer melodia num piano
envelhecido e renitente melancólico quanto baste
os dedos hesitam sobre o teclado desistem
coçam a cabeça abandonam os sons suspensos
na atmosfera ainda quente da noite passada
o telefone parece retinir impernitentemente
abafando a tosse do ancião à porta da cozinha
os gatos estão milagrosamente quietos
cheira a café
mfs
franz kafka / diários
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1911, 19 de janeiro
Como pareço estar completamente arrumado – durante o ano passado não estive
acordado mais do que cinco minutos – terei de desejar...
Há 8 horas
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