segunda-feira, dezembro 11, 2006

Gostos

Hoje enviaram-me esta mensagem para o FlickrMail:

Thank you very much for visiting my stream and your very kind words !

You have a great stream yourself, also your art pictures.

It is strange to see such good and many pictures with so little comments, they really deserve more attention !

take care

Michel

Foi um pequeno consolo.
Respondi-lhe que era difícil gostarem das minhas pinturas ( e, já agora, também das gravuras que é o que faço mais presentemente), mas que não me importava com isso, pois pinto de acordo com o que sou.
E é verdade.
Contudo há quem goste, por vezes muito, dos meus trabalhos.
Na Estampa de Madrid o artista espanhol que fez um workshop em que participei, disse gostar muito de duas das minhas gravuras e que não estava a mentir. Como ele não ganhava nada se o fizésse, acreditei, tanto mais que não se pronunciou da mesma maneira perante outros trabalhos.
Enfim, não estou com tempo nem paciência para trabalhar para agradar. Quero ser o que não pude ser durante muito tempo: eu mesma.

domingo, dezembro 10, 2006

Jarro

jarro

Singapura



Lá de longe, entre outras, a minha filha enviou esta fotografia de Singapura. Deve ser a imagem que prevalece da cidade-estado. Mas é ilusório...

sábado, dezembro 09, 2006

agora

era um coração de vento estilhaçado nas
fronteiras
os caminhos atulhados de vidas passadas
com rastos de ternuras mal contidas
e mal compreendidas

as fronteiras contraiam-se no
espaço recolhido das ninharias pungentes

como era possí­vel tanto restolho nas
faces esbranquiçadas
com os braços recobertos das
heras vorazes de verdes e de seivas

como seria um campo de neves sem
cristais
respirarações acauteladas
pelo pavor da entropia
as ervas queimadas de frio
um coraçãoo esvaziado de êxtase

de luzes com centelhas
de diamantes

m.f.s.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

não chove

a roupa está quase toda seca há folhas molhadas no chão do quintal vou ter de sair dia de aniversário tive sonhos agitados que esqueci vou tirar fotografias pode ser que fotografe algum fantasma perdido a memória na televisão é de 1988 e trata de comboios e outros meios de transporte reconheçoo a voz do descritor mas não sei quem é ele que acaba de dizer que o tempo não podia esperar pois não vou embora do antro onde se resguarda o velho computador

Árvore

noite noite

a loucura por habitar abre-me os portões do seu largo condomínio oferece-me a segurança do sossego vigiado põe persianas de mica nas frestas dos laranjais ao longe repicando as suas cores em redondas formas de perfumes brancos como resistir a tanta loucura por habitar

quinta-feira, dezembro 07, 2006

candelabros

candelabros


candelabros minha flor de laranjeira
sussurrava o sussurrante ao ouvido esquecido

candelabros ofuscantes na paisagem futurista dos teus sonhos
entre leitos alvos espalhados na planí­cie

luzes incolores nos olhos das crianças adormecidas
candelabros meu amor de fim de mundo


m.f.s.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

De hoje

a aragem que me
levanta os
cabelos
enegrece a
cor dos olhos dos
pássaros de passagem
pinta como
uma trincha a
mancha vermelha dos
enigmas

cruza as
brisas marítimas que
se engalfinham rente às
espumas enluaradas
das praias escondidas
cheias de pérolas
perdidas

a aragem seca a
água que
molhara o rosto
em contra-luz
na paisagem
esboçada no
bloco de
desenhos

m.f.s.

06-12-06

talvez haja
uma açucena
pendurada na
minha porta
que afasta os
malabarismos dos
incógnitos
espreitadores das
noites de
candeeiros apagados
rajadas escuras
pirilampos
afogados nos
verdes fosforescentes
das suas lanternas

talvez o perfume da
flor entonteça os
enamorados
debruçados nos
parapeitos
das pontes em
suspensão

talvez a
açucena seja um
espanta-espí­ritos
vigilante
uma sombra
acabada de
chegar
à noite dos
morcegos

m.f.s.

INSIGNIFICÂNCIAS





terça-feira, dezembro 05, 2006

segunda-feira, dezembro 04, 2006

meia-estação

meia-estação

segue-se a boca desmedida da noite sem luzes
ao rugir gargalhante das sombras bailarinas
sobre os muros mutilados dos castelos

sobram as mesquinhas agonias dos infelizes
as gotas remanescentes dos olhos subversivos
um revoltear de folhas outonais
na paisagem incandescente

os vinhos envelhecem deitados nos côncavos leitos de carvalho
o pó inventa desertos cinzentos sobre as garrafas em descanso
habitantes de mundos soterrados
aligeiram o passo cheiram os odores dos apetecí­veis festins

Águas arrefecidas pressagiam o endurecer das atmosferas
após os fins próximos
da meia-estação

mfs

2005

inúteis os
silêncios dos
corpos abandonados
nas clareiras das
florestas sem
pássaros
inúteis as vozes dos
homens torturados
algures em antros de
uma só luz

inúteis as
condolências após a
morte dos
pardais
não há asas que
cheguem para o ressoar das
músicas interditas

corridas todas as
cortinas restam os
ziguezagues dos
insectos

sobre a cabeça dos
condenados
inutilmente
calados nos
corredores da
morte asséptica

m.f.s.

Escrito

Hoje sinto-me ansiosa pelo fim de mim.
Estou cansada de existir,
olho-me e já não sou eu,

não sei porque persisto em respirar.

Conseguirei deixar de pensar,
lucidamente?

Num dia digo, não penso mais,
e já está,
entro no nirvana da não existência.

Aquele corpo ali é uma coisa

Foi um fardo durante demasiado tempo
Suportá-lo foi o meu castigo
por ser matéria

Agora
que abdiquei da existência
através do pensamento
vou esvaziar este fardo
de mim
vou poder não pensar

m.f.s.




Raízes desenraizadas

Escrito

há uma cor mansa à minha porta
neste entardecer de fim de era

silhuetas de asas longas

v a g a r o s a s

silenciosas

varrem o vento para os
horizontes em fogo

pégaso espreita entre as
nuvens escassas

sobre estes campos
restos de
sons abandonados no
regaço
das plantas ressequidas
sobre si deitadas

farrapos de luzes ondeiam
presos aos ramos implorantes
das árvores sem folhas

m.f.s.

Escrito

eu sou aquela rapariga morta
numa tarde de abril
de sois rebentando em sonoras luzes

de gotas transparentes em bailados de vento

sou aquela mulher assassinada pela espada
de uma dor sem fim

aquela criança de olhos baços
em silêncio atónito
sou eu

aquele homem torturado por pensar
quase sem rosto
é a minha imagem

tenho a alma à mostra como
uma asa que se desdobra antes do voo
e nela se esgotam todas as brisas

num gesto alargo a comunhão
aos que se desconhecem
aos que não sabem de ninguém
àqueles cujo amor fenece à nascença
aos invisíveis

a todos os que não deslocam o ar
na sua passagem
não atraem o olhar dos imaginários deuses
não sabem que são irrepetíveis

aos que ignoram a indescritível beleza
que possuem
e pela qual são possuídos
aos que se julgam mortos
sob qualquer céu do universo

eu sou todos eles

m.f.s.


Escrito

estorvavam os voos dos abutres
empurravam os muros decepados
estendiam os véus sobre as colinas
caíam nos vales encharcados

morriam como moscas desmaiadas
os olhos mil vezes facetados
asas de nácar reluzentes

m.f.s.

A sombra do luar



e nos teus olhos escondem-se
rios
salgados de peixes
em sinuosas artimanhas
a selva alaga-te o corpo de
terra feito
que para ela voltará
crescem-te voláteis plumas nas
solas dos pés

voas como Mercúrio

Vénus não te alcança e
Aquiles desistiu do
teu cavalo de Tróia

os mares entregam-te a Neptuno e
os tritões rasgam o
teu peito de anjo
Eolo levanta-te e
envolve-te em
diáfanas brumas
os teus braços nadam nos
céus de satã

no teu rosto de Joana d´Arc as
vozes traçam rotas abissais
vestes a armadura e
cavalgas o cavalo da
tua heroína
para a luta suicida
dos que
amam
sem
salvação

m.f.s.

Escrito

corriam pelos campos encharcados
pelas chuvas de inverno mal dormidas
assistiam ao nascer das andorinhas
em ninhos

e pela invernia bolorenta
não doi para cima nem pra baixo
o gemer da nora ferrugenta
a água sonha em altos gritos
a liberdade presa
na placenta

e as noites que corriam desenfreadas
atrás dos pesadelos imanentes
sentiam o cair dos corpos lentos

encurtavam as asas depenadas
com navalhas de aço incadescente
baixavam os rostos de cristal
desenhavam sorrisos inocentes

sorriam de manhã até à noite
com pipilares de anjos feridos
tinham os cabelos mui compridos
feitos de cabedal para o açoite

eram como amigos desunidos
em praias de ágil rebentação
com amargor tocavam o coração
dos pássaros em voos estarrecidos

precisavam de longas agonias
nos leitos de ferro engalanado
fechavam os olhos às tropelias
mordiam um dedo escangalhado

m.f.s.