sábado, junho 18, 2011

quinta-feira, junho 16, 2011

sábado, junho 11, 2011

Maria do Sameiro Barroso

VELADO NOME

Não sei como se inicia uma ou outra lua
Na lucidez bizarra à beira
dos abismos, ravinas,
precípicios.

Vivendo na coreografia perfeita das asas
e dos nomes.
No peito de opúncias.
Flores.

No cimo de uma paisagem desolada.
Sobre campânulas
que rodam na face
incendiada.

Em frente às labaredas. Da febre que
fere e estilhaça.
Percorrendo,
nos olhos das estrelas,

as gelosias corridas, as fendas de luz.
Um só vislumbre
e a chuva aproxima-se
revolvendo
a essência mole, o molde de gesso.
Abrindo a amplitude
imensa
ao velado nome
que canta o peso, a volúpia, a leveza
extrema.

O corpo destruído.

No âmago da dália

( Jardins Imperfeitos)

Maria do Sameiro Barroso
Millenium
77 Vozes de Poetas Portugueses
Universitária Editora

Rosa Alice Branco

11. PINTURA

1. O CHEIRO DO ORVALHO

As palavras chamam-me para dentro do poema
e arrastam-te comigo. Tanto vento
que se levantou de repente a esta hora.
Dormias?
Redemoinho entre as letras como um catavento
e sei confusamente que não estamos aqui
como sei que nunca viste uma árvore
ou um telhado cheio de pássaros
para podermos trocar a nossa ignorância
como um pacto de amor
que nos acorda quando nasce o dia.
Soletramos então a palavra «árvore»
que nasce no vidro da janela
mas já estamos longe
no cimo do papel
como duas silhuetas
absorvidas a colher o cheiro da terra.

E contudo as palavras mexem-se,
ouço as vozes atravessarem a lareira
o ressoar das letras espaçadas
as cores quentes à volta do fogo.
Não, não dormias a essa hora.
Eras tu que me arrastavas para dentro do poema
quando o vento dançava nos meus passos.
E eu pensava nas cores das faias
e como as folhas se juntam lá em cima
ou então pensava no grito do telhado
cheio de pássaros no papel
para te dar tudo
o que nunca vimos e ouvimos
na simplicidade
do orvalho da manhã.

Rosa Alice Branco
soletrar o dia
obra poética
edições quasi

rede

arames

pedalar

escrevinhar

elegantes aranhas
nas suas mágicas armadilhas

usam as gotas das chuvas
para assustar os insectos

que mesmo assim

se lhes oferecem
submissos

mfs

segunda-feira, maio 30, 2011

escrito

Nem sangues nem
sussurros de monjas
Nos canaviais

Nem insectos à espreita
Ursos formigueiros tapires de
Couraças medievais

Nenhum som escondido em baixas
frequências

Nem lagartas de espantosos adornos
Ou raposas a tender para o vermelho


Só gestos retumbantes

mfs

fotografia

escrito

Os cabelos emaranhados
Cheios de rupturas
Desertos
Limalhas de prata
Antiga

Os cabelos seguiam as brisas
Na praia sozinha
Competindo com o
som das mansas ondas

adornos
inutilidades

os crâneos
lisos
impolutos
refulgentes
dos heróis de bd

espreitavam-lhe
os sonhos descoloridos
silenciosos
esvoaçantes

os animais voadores
tinham
imponentes asas
transparentes
raiadas de finas linhas

como cabelos
de prata antiga

mfs

escrevinhar

As unhas gastavam-se
No descascar dos alimentos
Nas lavagens de louças e
Roupas

No imaginário dedilhar
Da guitarra
Nos equinócios da idade
Terminal

Os sinais celestes
Acumulavam-se
Nos reflexos da chuva

Nos olhos submissos
Dos animais domésticos

No suor das janelas
Os dedos escreviam
SOS

Save me
Save my soul

mfs

escrevinhar

Todos os dias à volta morriam
da mesma maneira
Pálidas nuvens quando o céu
estrelava
Para o meridiano
Riscos luminosos dos pirilampos
Pulsares que se desagregam
Sois nascentes
Águas mornas

Todos os dias à volta e
às voltas
No calendário de papel reciclado
Na porta do frigorífico
Preso entre ímans
Ao lado das listas de memórias
Recados
Medicamentos

Comprar azeite
Pão
Cenouras
Gelatinas
Boas lembranças

Ler

Ler
Escrever na testa
Os pressentimentos alienados
As mensagens gráficas
Elipses na contagem dos dias

À volta

Riscar o caderno
Manchar de negro
As folhas da
pequena árvore
paciente e esperançosa
grávida de um único fruto

pintar o seu luto

desbaratar os dias

e correr

mfs

sábado, maio 28, 2011

segunda-feira, maio 23, 2011

buganvília


plantei outra buganvília

escrito

com os dedos no cabelo sentia o volume do crâneo
as pequenas depressões
as baixas colinas
o vento entre os caminhos
o planalto que lhe achatava a cabeça

braquicéfala como os ancestrais maternos
queixo ligeiramente avançado
mais simetria que na carne que envolve
o osso

simetria
nas órbitas
maxilares
nariz

já podia imaginar como seria
a sua cabeça descarnada

a radiografia feita
ajudava

domingo, maio 15, 2011